O governo da ilha de Mallorca e seu conselho regional estão investindo cerca de €23 mil em uma empreitada que mistura história medieval e tecnologia moderna: encontrar os restos mortais de Jaume IV, o último pretendente ao trono do Reino de Mallorca no século XIV. A campanha arqueológica, que terá início em meados de setembro e duração de duas semanas, ocorrerá em Soria, no centro-norte da Espanha.

Segundo reportagem da Forbes España, a iniciativa não é uma simples curiosidade histórica. Trata-se de uma aposta calculada na recuperação de um capítulo fundamental da identidade mallorquina. O investimento, embora modesto, sinaliza a importância que a administração local atribui ao seu patrimônio cultural, mobilizando recursos para resolver um mistério de quase 700 anos.

Um rei sem reino, um túmulo sem convento

A busca se concentra no local de um antigo convento franciscano em Soria, onde se presume que Jaume IV foi sepultado. A complexidade da tarefa é amplificada pela história: o convento foi deliberadamente destruído durante a invasão napoleônica, no início do século XIX, para que não servisse de base de apoio às tropas francesas. Hoje, o local é um terreno vago.

Para perscrutar o subsolo, a equipe liderada pela arqueóloga Helena Inglada utilizará georradar, uma tecnologia que permite mapear estruturas subterrâneas sem escavação invasiva. O instrumento já identificou cavidades que podem corresponder à antiga capela onde o nobre foi enterrado. Ainda assim, a incerteza paira. “Não sabemos o que encontraremos nem em que condições”, afirmou Inglada, expressando a esperança de que o túmulo esteja identificado e os restos, preservados.

O valor da memória

O que leva uma administração pública a investir na busca por um monarca que nunca reinou de fato? A resposta reside no valor intangível da narrativa. Para Mallorca, resgatar Jaume IV é reafirmar sua própria história e autonomia, mesmo que simbólica. O projeto é um investimento na marca cultural da ilha, com potencial para fortalecer o turismo histórico e o senso de pertencimento local.

Em um contexto mais amplo, a expedição em Soria reflete um movimento global de uso da ciência para reconstruir o passado. A tecnologia não serve apenas para projetar o futuro, mas também para decifrar o que fomos. A iniciativa de Mallorca, embora pequena, levanta uma questão universal: qual o preço da memória? E como as sociedades equilibram o investimento em seu legado com as demandas do presente?

A expedição pode ou não encontrar os restos de Jaume IV. O sucesso não está garantido. Contudo, o próprio ato da busca já cumpre uma função: a de contar uma história. Independentemente de encontrarem um túmulo real ou apenas os escombros de um convento, Mallorca já está resgatando uma parte de si mesma que jazia esquecida sob o solo de Soria.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España