Quase metade dos recém-graduados americanos, cerca de 42% na faixa etária de 22 a 27 anos, encontram-se em empregos que não demandam um diploma universitário. Este cenário de subemprego, monitorado pelo Federal Reserve Bank of New York, atingiu 42% em junho, uma leve queda em relação a picos anteriores, mas ainda significativamente alta. Paralelamente, a taxa de desemprego para esses jovens alcançou 5,7% em junho, consideravelmente acima dos 4,1% observados na força de trabalho geral. Essa inversão de tendência, onde graduados universitários enfrentam maiores taxas de desemprego que a média, é uma novidade desde que os dados do Fed começaram a ser compilados em 1990. A situação varia drasticamente entre os cursos: áreas como justiça criminal (65,8%), artes cênicas (63,9%) e belas artes (58,9%) lideram o subemprego, enquanto engenharias e ciência da computação também apresentam taxas de desemprego elevadas (7,8% e 7%, respectivamente). Em contraste, educação especial (0,7%), educação fundamental (1,2%) e enfermagem (2,1%) registram as menores taxas de desocupação.
O fantasma da superprodução de elites
A historiador Peter Turchin, professor emérito da Universidade de Connecticut, cunhou o termo "superprodução de elites" para descrever sociedades que formam mais indivíduos com aspirações de status elevado do que vagas disponíveis para essa elite. Segundo Turchin, esse excedente frustrado se volta contra o sistema, tornando-se um dos três pilares de instabilidade social, ao lado da queda no padrão de vida da população e da incapacidade governamental de honrar suas dívidas – um cenário que se agrava com a dívida nacional dos EUA ultrapassando os US$ 40 trilhões.
Turchin argumenta que os Estados Unidos, assim como civilizações passadas, enfrentam um excesso de graduados em busca de posições que a economia não consegue gerar. A consequência, em sua visão, é uma "onda de instabilidade sociopolítica prolongada e intensa". O valor do diploma, segundo ele, declina diante da saturação do mercado, transformando o que antes era um diferencial em um requisito comum, e o que era um acesso a uma classe média alta em um cenário de competição acirrada por benefícios decrescentes.
Jovens no limite: protestos globais
Essa teoria encontra eco nas ruas de diversas nações. No Nepal, em setembro de 2025, a proibição de 26 plataformas de mídia social desencadeou protestos violentos, com jovens manifestando descontentamento contra o fenômeno "Nepo Kids" – filhos de políticos que exibem suas vidas luxuosas em um país com 21% de desemprego juvenil. Na Índia, em maio deste ano, um movimento de protesto irônico, o "Cockroach Janta Party", surgiu em resposta a comentários do judiciário sobre jovens desempregados e fraudes em exames de seleção, focando em vazamentos de testes nacionais.
Na França, estudantes têm realizado paralisações desde meados de setembro, protestando contra a escassez de professores, salas de aula superlotadas e o sistema Parcoursup de alocação universitária. A insatisfação escalou para manifestações de rua com centenas de milhares de pessoas, ampliando o foco para o custo de vida e gerando confrontos em várias cidades. Protestos similares eclodiram em outros países europeus, como Bélgica, Albânia, Grécia e Itália, com demandas que incluem a criação de mais vagas universitárias – uma exigência que esbarra nas restrições fiscais francesas, com a dívida pública projetada para atingir 121,7% do PIB.
O espelho italiano e o impacto da IA
O cenário americano, embora menos explosivo, começa a apresentar semelhanças com a Itália, onde a dificuldade dos jovens em encontrar empregos dignos contrasta com a permanência de pessoas mais velhas em posições estáveis. Em setembro, a taxa de desemprego para jovens de 20 a 24 anos nos EUA foi de 7,1%, mais que o dobro da taxa para trabalhadores de 25 a 54 anos (3,6%). A proporção entre o desemprego juvenil e o de adultos de meia-idade é um ponto de convergência com a Itália, onde o desemprego jovem beira os 20%.
Rana Foroohar, em artigo no Financial Times, aponta a inteligência artificial como um fator que favorece trabalhadores experientes, ao mesmo tempo em que comprime as vagas de entrada. Um estudo do Census Bureau indica que graduados em áreas mais expostas à IA tiveram uma redução de 5 pontos percentuais nas chances de conseguir o primeiro emprego e uma remuneração 13% menor. Enquanto a teoria de Turchin explica o excesso de credenciais, a análise de Foroohar sugere que as portas para o mercado de trabalho permanecem fechadas para os recém-chegados.
O subemprego entre recém-graduados não é um fenômeno novo, com taxas historicamente girando em torno de 40%. Contudo, a diferença crucial reside no desemprego: antigamente, um período de trabalho informal era um desvio temporário. Hoje, para uma parcela crescente de graduados globalmente, parece ser o destino final. O que se observa em países como Nepal, Índia e França pode ser um prenúncio do que acontece quando uma geração considera o sistema de seleção como fundamentalmente injusto e se rebela contra ele.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune




