A cena inicial de "9 Templos para o Céu" (2026) é um convite à introspecção. Em um salão escuro, um pequeno altar dourado é iluminado por velas, revelando gradualmente sua grandiosidade e as estátuas radiantes em seu interior. Do lado de fora, preparativos para um funeral indicam a efemeridade da vida, um contraste pungente com a busca por bênçãos divinas. O filme de Sompot Chidgasornpongse, exibido no New York Film Festival, não se apressa em oferecer respostas, mas nos convida a observar, com a paciência que o diretor demonstra em seu trabalho, a intrincada tapeçaria da fé na Tailândia contemporânea.
O longa acompanha a família de Sakol (Surachai Ningsanond) em uma peregrinação a nove templos budistas. A missão, impulsionada por uma premonição do empregador de Sakol, é coletar o máximo de "mérito" por meio de oferendas materiais e orações, com o objetivo de estender a vida de sua mãe idosa, Sakuay (Amara Ramnarong). A urgência em completar essa jornada em um único dia sugere a crença em um poder cósmico que responde a rituais específicos, uma faceta da espiritualidade que coexiste de forma peculiar com os aspectos mais mundanos da existência.
Fé em Meio ao Caos Urbano
Chidgasornpongse, conhecido por sua abordagem observacional em documentários como "Railway Sleepers" e por seu trabalho com Apichatpong Weerasethakul, emprega longas tomadas e ângulos amplos que frequentemente se detêm na arquitetura dicotômica de Bangkok. Essa escolha visual não é mera estética; ela serve para catalogar, de forma quase documental, como o budismo se manifesta na Tailândia, navegando entre as correntes do capitalismo, do patriarcado e das rotinas diárias. A quietude da câmera, no entanto, não deve ser confundida com neutralidade. Há uma tensão latente na forma como o sagrado e o profano se entrelaçam, como a busca por milagres se insere em um contexto de vida urbana acelerada e de transações comerciais.
O filme sugere que a fé, em muitas de suas manifestações, é uma ferramenta para lidar com as incertezas da vida. A família de Sakol, ao realizar as visitas aos templos, não está apenas buscando uma intervenção divina para a saúde de Sakuay, mas também reafirmando seus laços familiares e suas próprias crenças em um mundo em constante mudança. A arquitetura dos templos, muitas vezes grandiosa e ornamentada, contrasta com a simplicidade das oferendas, como flores e incenso, evidenciando a forma como a devoção se expressa em gestos concretos, imersos em um sistema de crenças que busca ordem em meio ao caos.
O Legado das Crenças e as Contradições Modernas
A jornada de Sakol e sua família pode ser vista como uma metáfora para a busca humana por significado e controle em face da mortalidade. A premonição que desencadeia a viagem adiciona uma camada de misticismo, mas o filme se mantém ancorado na observação cuidadosa das interações familiares e do ambiente ao redor. A presença de Sakuay, a matriarca cuja vida está em jogo, confere uma gravidade emocional à narrativa, enquanto Sakol personifica a responsabilidade e a esperança de um filho diante do envelhecimento dos pais. O filme, ao retratar essa dinâmica, toca em temas universais de amor filial, dever e a aceitação da finitude.
As contradições apontadas pelo título do filme se manifestam de diversas formas. Vemos a espiritualidade budista coexistindo com a arquitetura moderna e, por vezes, comercial de Bangkok. A busca por bênçãos materiais, como a extensão da vida, levanta questões sobre a natureza da fé: é um ato de devoção genuína ou uma forma de barganha com o divino? Chidgasornpongse parece mais interessado em apresentar essas questões do que em resolvê-las, permitindo que o espectador reflita sobre suas próprias crenças e sobre como a fé se molda e é moldada pelo contexto social e econômico.
Implicações e a Busca por Milagres
O filme, ao focar em uma família específica e sua busca particular, abre um leque de reflexões sobre a prática religiosa na Tailândia e, por extensão, em outras culturas onde o sagrado se mescla ao cotidiano. A forma como os templos são apresentados — como locais de peregrinação, mas também como espaços arquitetônicos e sociais — sugere que a religião é uma parte intrínseca da identidade cultural, influenciada e, por sua vez, influenciando as estruturas de poder e as dinâmicas sociais. A menção ao patriarcado, por exemplo, pode ser interpretada nas dinâmicas familiares e na própria estrutura da sociedade tailandesa, onde a religião pode reforçar ou desafiar papéis de gênero.
Para o espectador, a experiência de assistir a "9 Templos para o Céu" é a de uma imersão contemplativa. A falta de um enredo convencional e a ênfase na observação paciente convidam a uma reflexão mais profunda sobre os rituais, as crenças e as contradições que moldam a experiência humana. O filme não oferece respostas fáceis, mas propõe um olhar atento sobre como as pessoas buscam sentido e esperança em um mundo complexo, onde a fé é um fio condutor, por vezes tênue, mas sempre presente.
Perguntas em Aberto na Jornada Espiritual
Ao final da peregrinação, o que resta para Sakol e sua família? O filme termina sem uma resolução clara, deixando o espectador com a imagem dos templos e das oferendas, mas sem a confirmação de um milagre ou de uma intervenção divina explícita. Essa ambiguidade é, talvez, o ponto mais forte da obra de Chidgasornpongse. Ela nos força a considerar o que realmente buscamos em nossos rituais e preces: uma solução mágica para os problemas da vida, ou um processo de autoconhecimento e fortalecimento interior? A jornada em si, com seus desafios e momentos de reflexão, pode ser o verdadeiro "mérito" a ser alcançado.
As perguntas que pairam no ar são sobre a natureza da esperança e a resiliência do espírito humano. Em um mundo cada vez mais secularizado e capitalista, onde a fé encontra seu lugar? Como as tradições espirituais se adaptam e persistem diante das pressões modernas? "9 Templos para o Céu" não responde diretamente, mas nos deixa com a imagem persistente de uma família em busca de algo maior, em um país onde o sagrado se manifesta de formas surpreendentes e, por vezes, contraditórias.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





