O mercado de moda masculina vive um ponto de inflexão. Uma onda de marcas, de startups a gigantes do luxo, aposta em diferentes níveis de personalização para atrair um consumidor mais exigente, que busca caimento perfeito e durabilidade. A oferta vai de peças prontas para vestir a itens feitos sob medida, criando uma zona cinzenta no que antes era um território bem definido.

A proliferação de opções, no entanto, gerou uma batalha de narrativas. Segundo uma análise da publicação Highsnobiety, termos como "artesanal", "personalizado" e a própria "alfaiataria" foram esvaziados de seu significado original, tornando-se ferramentas de marketing. A questão central é quem de fato entrega o valor prometido e quem apenas se apropria do vocabulário.

A Batalha pelo Vocabulário

A ironia é que a abundância de escolha tornou mais difícil encontrar roupas que justifiquem seu preço. Nesse vácuo, surgiram marcas nativas digitais como a Son of a Tailor e a Proper Cloth. Elas prometem resolver o problema do caimento usando tecnologia, como "ajustes algorítmicos", para criar peças que se aproximam do sob medida sem o custo e o tempo de um ateliê tradicional.

Esta abordagem se posiciona como uma espécie de "slow fashion" para um público que valoriza a engenharia do produto, a durabilidade dos materiais e até a sustentabilidade do processo. O custo se aproxima do mercado de luxo, mas a proposta de valor está na individualização e no envolvimento do cliente, algo que o varejo de massa não consegue oferecer.

O Modelo Charvet e o Futuro Híbrido

O grande exemplo que inspira essa tendência, segundo a publicação, é a Charvet. A camisaria parisiense, fundada em 1838, é uma mestra em transitar entre mundos. A empresa utiliza o conhecimento adquirido em suas peças bespoke (feitas do zero para um cliente) para informar as técnicas de produção de suas coleções prêt-à-porter (prontas para vestir) e demi-mesure (semi-personalizadas).

Essa estratégia confere uma aura de credibilidade a todas as faixas de seu portfólio. Não à toa, a Chanel anunciou a aquisição da companhia em julho, um movimento que valida a força do conceito de "customização" como um pilar de negócio para o luxo. O movimento sinaliza que o futuro não é uma escolha entre massa e exclusividade, mas uma combinação inteligente de ambos.

A busca pelo ajuste perfeito deixou de ser um luxo restrito a poucos. Hoje, é um desafio tecnológico e de branding que redefine as fronteiras do varejo. Resta saber se essa massificação do "sob medida" entregará produtos genuinamente superiores ou apenas uma nova camada de sofisticação ao marketing de moda.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Highsnobiety