Cientistas da Universidade de Southern Illinois Carbondale (SIU), nos Estados Unidos, desenvolveram um método para transformar garrafas de plástico PET e resíduos agrícolas em alimento. O resultado é um biscoito hiperproteico impresso em 3D, batizado de µBites (microbites), criado a partir de um processo que decompõe o plástico e o reconstrói como matéria orgânica comestível.
A premissa do projeto, liderado pelo microbiólogo Lahiru Jayakody, é que tanto o plástico quanto a comida são fundamentalmente feitos de carbono. A inovação, que recebeu um subsídio de US$ 25 mil da NASA, é uma prova de conceito fascinante. Contudo, ela expõe o abismo entre um feito de laboratório e uma solução viável para os problemas globais de poluição e segurança alimentar.
Do reator à impressora 3D
O processo, ainda complexo, envolve cerca de 33 etapas. Primeiro, o plástico PET e restos de colheitas são moídos e inseridos em um reator que utiliza alta temperatura, pressão e oxigênio para decompor os materiais em partículas de carbono solúveis em água. É a engenharia química abrindo caminho para a biologia.
Na fase seguinte, leveduras geneticamente modificadas consomem esse carbono. As cepas foram desenhadas para produzir não apenas proteínas e gorduras, mas também compostos específicos, como aroma de baunilha e betacaroteno (precursor da vitamina A). A pasta nutritiva resultante é então misturada a outros ingredientes e moldada por uma impressora 3D antes de ser cozida, resultando em um biscoito que, em tese, é seguro para consumo.
O abismo entre prova de conceito e mercado
A tecnologia enfrenta, no entanto, obstáculos práticos imensos. Segundo reportagem do jornal The Guardian citada pela fonte, o custo de produção é de aproximadamente US$ 60 por quilo, inviabilizando qualquer aplicação comercial em massa no curto prazo. A escala é outro problema. Como observou Jason Hallett, do Imperial College London, à revista New Scientist, o mundo gera 400 milhões de toneladas de lixo plástico anualmente; a ideia de transformar tudo isso em biscoitos não é realista.
Além das barreiras econômicas e de engenharia, há o fator humano e regulatório. O projeto ainda aguarda aprovação para testes de sabor com pessoas. Mesmo que se prove totalmente seguro, convencer o público a consumir um alimento derivado de uma garrafa plástica representa um desafio cultural e psicológico monumental.
O projeto µBites funciona menos como uma solução imediata e mais como uma provocação poderosa sobre o futuro dos recursos. A tecnologia força uma reavaliação do que consideramos "lixo" e "alimento". O caminho para alimentar astronautas com plástico reciclado pode ser longo, mas as questões que ele levanta sobre circularidade e inovação radical são para hoje.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · La Nación — Tecnología





