A Topgolf, rede de complexos de entretenimento focada em golfe, quer deixar de ser apenas um programa de fim de semana para se tornar a principal porta de entrada para o esporte. À frente da missão está David McKillips, que assumiu como CEO em fevereiro e traz na bagagem uma experiência peculiar: a reestruturação da rede de fliperamas e pizzarias Chuck E. Cheese. A aposta, segundo ele detalhou em entrevista à revista Fortune, é que o próximo grande nome do golfe profissional pode dar suas primeiras tacadas em um de seus estabelecimentos, e não em um clube de campo exclusivo.

A tese de McKillips é que, ao remover as barreiras tradicionais do esporte — como o alto custo de equipamentos, a intimidação dos clubes privados e a própria complexidade do jogo —, a Topgolf pode catalisar uma nova geração de praticantes. A meta é ambiciosa: criar 10 milhões de novos golfistas até 2030. A estratégia replica o manual que ele aplicou na CEC Entertainment, onde liderou a empresa para fora de um processo de recuperação judicial, modernizando a experiência e ampliando seu apelo para além do público cativo.

Do fliperama ao green

A experiência de McKillips na recuperação da Chuck E. Cheese, uma marca icônica do entretenimento familiar americano, é a lente através da qual ele enxerga o futuro da Topgolf. Lá, o desafio foi revitalizar um negócio legado, endividado e afetado pela pandemia. A solução passou por injetar capital em tecnologia, modernizar as unidades e repensar o modelo de negócio. Na Topgolf, o roteiro é similar: usar a tecnologia e um ambiente descontraído para "gamificar" o golfe e atrair um público que, de outra forma, jamais pegaria em um taco.

Para transformar a visão em realidade, a empresa está investindo em programas concretos. Uma parceria com a organização sem fins lucrativos Youth on Course, por exemplo, oferece a jovens de até 18 anos acesso às instalações por apenas US$ 5 durante a semana. A lógica é simples: a Topgolf fornece os tacos, as bolas e a tecnologia de rastreamento Toptracer — a mesma usada nas transmissões de torneios profissionais. Com isso, o custo e a intimidação, dois grandes filtros do esporte, são neutralizados. A leitura é que a empresa não está apenas vendendo entretenimento, mas construindo um funil de conversão para o esporte.

Um 'terceiro espaço' com tacos

A estratégia, no entanto, vai além de apenas democratizar o acesso. A Topgolf está se posicionando como um "terceiro espaço" — um destino de socialização que não é nem casa, nem trabalho. Para ampliar o topo do funil, a empresa está diversificando sua oferta para além do golfe, incorporando fliperamas, dardos e até quadras de pickleball. A ideia é que um cliente pode chegar para um happy hour no bar ou para jogar com amigos e, eventualmente, ser atraído para a área de golfe. Segundo McKillips, "você não precisa jogar golfe" para frequentar o local.

Este movimento busca capturar duas das demografias que mais crescem no esporte: mulheres jovens e crianças. Dados da National Golf Foundation mostram que a representação feminina no golfe atingiu um recorde. A Topgolf aposta que sua atmosfera social e tecnológica é o ambiente ideal para esse novo público. A tecnologia Toptracer, integrada em todas as baias, permite que até um iniciante em uma festa de despedida de solteiro veja a trajetória de sua bola com a mesma precisão de um profissional na TV, tornando a experiência instantaneamente mais envolvente e competitiva.

A visão de McKillips é transformar a Topgolf no "destino definitivo de esportes, entretenimento e golfe". O desafio será equilibrar a cultura de entretenimento de massa com a ambição de se tornar um celeiro de talentos para um dos esportes mais tradicionais do mundo. A questão que fica é se a fórmula que funciona para vender pizza com fliperama pode, de fato, revelar o próximo Tiger Woods.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune