Donald Trump posicionou-se como um defensor intransigente da aceleração da inteligência artificial, instando os americanos a não “matarem a galinha dos ovos de ouro”. Em sua plataforma Truth Social, o ex-presidente argumentou que qualquer hesitação no desenvolvimento de IA e data centers representaria uma vitória para a China, criticando nominalmente Dario Amodei, CEO da Anthropic, por pedir cautela.

A posição é notável por colocar Trump em rota de colisão não apenas com os especialistas em segurança de IA, mas também com o próprio eleitorado. A aposta de Trump é que a promessa de prosperidade econômica da tecnologia deve se sobrepor tanto aos alertas de risco da indústria quanto à crescente desconfiança popular, num movimento que o isola em seu próprio campo político.

O dilema da galinha de ouro

A retórica de Trump ignora um dado inconveniente. Segundo uma reportagem da Fortune, que cita uma pesquisa do Annenberg Public Policy Center, 61% dos americanos opõem-se à construção de um novo data center em sua comunidade. O número inclui 54% dos eleitores republicanos, o que evidencia uma fratura entre a visão do ex-presidente e sua base.

O fosso aprofunda-se quando se observa o debate dentro da própria indústria de tecnologia. Líderes como Amodei e Sam Altman, da OpenAI, têm defendido mais supervisão e a implementação de barreiras de segurança. Trump, por sua vez, ecoado por seu vice-presidente JD Vance, desqualifica tais apelos, tratando-os como uma conspiração para frear o avanço americano ou, na visão de Vance, um “cavalo de Troia” para que as gigantes do setor capturem a regulação a seu favor.

Intervenção e mercado

A disputa verbal tem consequências financeiras imediatas. A simples menção a um possível abrandamento no desenvolvimento de modelos de fronteira fez as ações da Nvidia caírem, enquanto Meta e Alphabet registraram alta, expondo as complexas e por vezes contraditórias dinâmicas do mercado de capitais em relação à IA. A incerteza regulatória é hoje um fator de precificação de risco.

Para Trump, a solução parece ser um maior intervencionismo estatal, uma estratégia já aplicada em setores como o de semicondutores. O governo não apenas usou ordens executivas para monitorar modelos de IA, mas também flertou abertamente com a ideia de adquirir participações diretas nas empresas de tecnologia. A reportagem da Fortune lembra um caso emblemático: ao permitir que a Nvidia retomasse vendas para a China, o governo americano teria negociado uma fatia da receita para si.

O debate sobre a segurança da IA, portanto, deixou de ser uma questão filosófica restrita a Berkeley e tornou-se um campo de batalha geopolítico e econômico. A postura de Trump força uma escolha clara: o aceleracionismo pragmático em nome da competição com a China, mesmo contra a vontade popular, ou a cautela defendida por parte de seus criadores. A resposta definirá a próxima fase da relação entre Estado, inovação e sociedade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune