A oposição aos direitos de pessoas trans é frequentemente associada, no imaginário global, ao populismo de direita. Figuras como Viktor Orbán na Hungria, Giorgia Meloni na Itália e o ex-presidente Jair Bolsonaro no Brasil são exemplos de lideranças que fizeram da cruzada contra a chamada “ideologia de gênero” um pilar de suas plataformas. No Reino Unido, contudo, o cenário é mais complexo e instrutivo. Ali, a frente anti-trans ganhou tração a partir de uma aliança improvável, unindo não apenas a direita conservadora, mas também setores significativos da esquerda e do movimento feminista.
Uma nova análise, extraída do livro “Unsafe: The Carceral Roots of the Anti-Trans Backlash”, de S. Lamble, e publicada pelo site Lit Hub, disseca essa dinâmica. O argumento central é que a força motriz por trás dessa coalizão heterogênea não é uma ideologia compartilhada, mas sim uma “política de segurança carcerária”. Trata-se de uma lógica que transforma o medo da violência em justificativa para respostas punitivas, como policiamento, vigilância e exclusão, criando uma armadilha que, no fim, compromete a segurança de todos.
A diagonal política
Enquanto na maior parte do mundo a pauta anti-trans é um apêndice do nacionalismo conservador, a campanha britânica se notabilizou pelo que o livro descreve como “diagonalismo político”. Grupos como A Woman’s Place UK, por exemplo, foram fundados em 2017 por sindicalistas e feministas de esquerda, com o objetivo inicial de questionar a expansão de direitos trans. Essa origem permitiu que o movimento se apresentasse como uma frente plural, transcendendo o espectro político tradicional.
A coesão dessa aliança não vem de objetivos em comum — afinal, feministas que criticam o “gênero” como reforço de estereótipos têm visões de mundo fundamentalmente distintas de conservadores que defendem papéis de gênero “tradicionais”. O que os une é um inimigo comum e convenientemente vago: a “ideologia de gênero”. O termo funciona, segundo a análise de Lamble, como um “significante vazio”, que cada grupo preenche com suas próprias ansiedades, seja o medo da mudança social ou a oposição ao feminismo. Essa flexibilidade retórica permite a colaboração estratégica entre atores que, em outras arenas, seriam adversários.
A lógica da punição
Inicialmente, os argumentos de grupos “críticos de gênero” no Reino Unido se concentravam em noções de “justiça” e “direitos das mulheres”. A campanha, no entanto, só ganhou tração massiva quando mudou o foco para a segurança. A tática mais eficaz, aponta o livro, foi enquadrar os direitos trans — especialmente a autodeterminação de gênero — como uma ameaça direta à segurança de mulheres e crianças em espaços segregados por sexo, como banheiros e vestiários. Ao associar a identidade trans a um risco de violência sexual, os ativistas canalizaram medos legítimos sobre a violência de gênero para uma pauta anti-trans.
O resultado é uma armadilha carcerária. De um lado, críticos de gênero demandam exclusão e policiamento de identidades para proteger mulheres. Do outro, ativistas trans, em resposta à hostilidade e à violência que de fato sofrem, por vezes recorrem à mesma lógica, demandando leis mais punitivas contra o discurso de ódio. O debate se transforma em uma disputa sobre quem é a vítima mais merecedora de proteção e quem é o agressor que precisa ser punido. Essa dinâmica, argumenta Lamble, desvia o foco das condições estruturais que geram violência e opõe grupos marginalizados, enquanto fortalece o aparato punitivo do Estado como suposta solução para problemas sociais complexos.
O modelo britânico de ativismo, com suas alianças diagonais e foco na retórica do perigo, já está sendo exportado. Organizações fundadas no Reino Unido, como a LGB Alliance, agora possuem capítulos em dezenas de países, incluindo nações como Estados Unidos, Canadá e Austrália. Financiamento de grupos conservadores americanos tem ajudado a impulsionar essa expansão global. O que está em jogo, portanto, não é apenas o futuro dos direitos trans, mas uma questão mais ampla sobre como as sociedades definem e buscam a segurança — se através da inclusão e do cuidado, ou da desconfiança e da punição.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





