Dois em cada três jovens na Espanha estão adiando decisões cruciais de vida, como sair da casa dos pais ou formar uma família, por uma razão singular: o custo da moradia. O dado, alarmante, vem da primeira edição do Índice EAE de esforço imobiliário, um estudo da EAE Business School que joga luz sobre a situação residencial da população entre 25 e 45 anos.

O que os números revelam, segundo reportagem da Forbes España, é mais do que uma dificuldade financeira; é um obstáculo estrutural que redefine o que significa ser jovem e construir um futuro. A questão da moradia deixou de ser apenas um item no orçamento para se tornar um fator determinante no bem-estar emocional, nas escolhas de carreira e na própria percepção de equidade social entre gerações.

A crise geracional do tijolo

O estudo espanhol aponta para uma fratura social: 85% dos jovens entrevistados consideram que a moradia se tornou uma fonte de desigualdade entre gerações. A percepção é que o acesso à propriedade está se tornando menos uma questão de mérito e mais de herança. Cerca de 75% acreditam ser praticamente impossível comprar um imóvel sem ajuda familiar, e 71% veem a herança como uma das poucas vias reais para adquirir um teto próprio.

Essa dependência cria o que o relatório chama de “armadilha da poupança impossível”. O custo médio do aluguel (962 euros) supera o de uma prestação de hipoteca (778 euros). No entanto, sem a poupança para a entrada, os jovens são forçados a alugar. O valor elevado do aluguel, por sua vez, consome a capacidade de poupar, perpetuando um ciclo em que a casa própria permanece um sonho distante para 84% dos não proprietários que gostariam de comprar.

O custo oculto na carreira e no bem-estar

As implicações transbordam o aspecto financeiro. Dois terços dos entrevistados afirmam que o custo da moradia afeta negativamente seu bem-estar emocional, especialmente entre os que vivem de aluguel. A instabilidade e a falta de perspectiva pesam sobre a saúde mental de uma geração que se sente presa em uma situação sem saída aparente.

O impacto se estende à mobilidade econômica e profissional. O estudo revela que 22,5% dos jovens já recusaram uma oferta de trabalho por causa do custo de vida na cidade onde a vaga estava localizada. Morar perto do trabalho tornou-se um luxo para 82% dos entrevistados, forçando escolhas difíceis entre progressão na carreira e um lugar para viver a um custo razoável.

O cenário descrito na Espanha, embora específico em seus números, ecoa uma ansiedade global. A dificuldade de acesso à moradia nos grandes centros urbanos não é um problema estritamente europeu. As dinâmicas de valorização imobiliária, estagnação salarial e o alto custo de vida ressoam em metrópoles brasileiras, levantando a questão de qual será o custo social de longo prazo quando uma geração inteira é forçada a colocar a vida em compasso de espera.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España