Em uma manhã de setembro de 2015, o Palais des Nations, sede europeia das Nações Unidas em Genebra, fervilhava com a presença de diplomatas e especialistas em saúde global. Entre os presentes, Svetlana Pozhidaeva, então com 31 anos, caminhava pelos corredores vestindo uma peça escolhida por Jeffrey Epstein, o homem que a mantinha sob sua órbita há cinco anos. Sem qualquer formação em epidemiologia ou relações internacionais, Pozhidaeva estava ali sob a promessa de que coordenaria um projeto de alto nível entre o International Peace Institute (IPI) e a Gates Foundation. Na prática, contudo, a realidade era outra: ela era uma peça decorativa em um esquema de legitimação social, um detalhe que ela só compreenderia plenamente anos mais tarde ao refletir sobre como o prestígio institucional foi usado como uma coleira invisível.

A revelação, baseada em documentos do Departamento de Justiça dos EUA e relatos de sobreviventes, desnuda um modus operandi sofisticado onde a filantropia servia de fachada para a exploração. Epstein não apenas frequentava círculos de elite; ele os moldava. Segundo reportagem da Fortune, o financista orquestrou a aproximação entre o IPI e a Gates Foundation em 2013, garantindo uma doação de 5 milhões de dólares que, por três anos, representou mais de 20% das receitas anuais do think tank. Ao colocar suas assistentes em posições dentro dessas organizações ou usar o nome de instituições renomadas para facilitar vistos e currículos, ele criava uma dependência psicológica e burocrática que tornava a saída de suas vítimas um labirinto quase intransponível.

O poder da legitimação institucional

A eficácia do controle exercido por Epstein residia na capacidade de tornar o inaceitável em algo respeitável. Para uma jovem estrangeira, muitas vezes com barreira linguística e longe de suas redes de apoio, ser introduzida a primeiros-ministros e executivos de tecnologia por intermédio de Epstein conferia ao agressor uma aura de intocabilidade. A associação com o IPI, uma organização que trabalhava na prevenção de conflitos armados, e com a Gates Foundation, símbolo máximo da filantropia moderna, funcionava como um selo de veracidade. As vítimas, ao serem inseridas nesses ambientes, passavam a questionar a própria percepção sobre o comportamento do agressor, assumindo que, se pessoas tão poderosas o aceitavam, talvez o problema residisse em sua própria incompreensão do mundo.

Historicamente, a elite global falhou em realizar a devida diligência necessária quando o capital de Epstein estava em jogo. O ex-presidente do IPI, Terje Rød-Larsen, manteve laços estreitos com o financista, chegando a solicitar empréstimos pessoais e a assinar cartas de recomendação para vistos de mulheres que, na prática, não desempenhavam funções técnicas no instituto. Esse cenário evidencia uma falha estrutural nas instituições de alto nível: a prioridade pela captação de recursos e pelo networking global frequentemente sobrepôs-se à ética básica de governança, permitindo que um criminoso sexual condenado operasse como um facilitador de influência internacional.

A mecânica da dependência burocrática

O mecanismo de controle era, em sua essência, uma armadilha burocrática. Epstein não apenas prometia carreiras; ele as manipulava através da necessidade de vistos e moradia. Ao financiar salários diretamente ou utilizar a estrutura do IPI para conferir legitimidade a permanências de estrangeiras em solo americano, ele transformou a sobrevivência básica dessas mulheres em um favor pessoal. Documentos mostram que, quando uma das assistentes teve problemas com seu visto de estudante, Epstein acionou imediatamente Rød-Larsen, que prontamente se ofereceu para interceder junto a autoridades diplomáticas. A mensagem implícita era clara: a estabilidade de vida daquelas mulheres dependia inteiramente da vontade e do acesso de Epstein.

Essa dinâmica criava o que as sobreviventes descrevem como uma "miragem de oportunidade". Elas eram incentivadas a acreditar que estavam construindo carreiras em organizações globais, quando, na verdade, estavam apenas sendo mantidas em posições de fachada. A evidência de que Epstein pagava, por vezes, pelos salários que o IPI distribuía a suas assistentes, como no caso de uma funcionária cujo custo à organização foi contabilizado internamente em 71 mil dólares, reforça que a relação era puramente transacional. O prestígio do IPI era um ativo que ele alugava para manter suas vítimas tethered — presas a um ciclo de gratidão forçada e medo constante.

Implicações para o ecossistema de filantropia

O caso deixa marcas profundas na reputação das instituições envolvidas e levanta questões sobre a cultura de doações de alto valor. A Gates Foundation, ao ser utilizada como instrumento de influência sem o conhecimento pleno de seus quadros, viu-se obrigada a iniciar uma revisão externa de suas práticas de vetting. A tensão aqui é clara: como organizações que buscam resolver problemas globais podem garantir que seus doadores e parceiros não estejam utilizando a marca para agendas predatórias? A resposta exige uma mudança cultural que vai além de auditorias financeiras, focando na integridade das relações humanas que sustentam essas parcerias.

Para o mercado e para o ecossistema de ONGs, o precedente é um alerta sobre os riscos de "donos de poder" que operam nas sombras das grandes fundações. A falha não foi apenas de um indivíduo, mas de um sistema que valorizou o acesso e o capital em detrimento da transparência. No Brasil, onde o setor de filantropia e o terceiro setor crescem em relevância, o caso serve como um lembrete de que a governança corporativa deve ser aplicada com o mesmo rigor, independentemente da nobreza da causa ou do prestígio dos envolvidos. A confiança, uma vez quebrada por associações dessa natureza, é um ativo dificilmente recuperável.

Incertezas e o peso do silêncio

Embora Rød-Larsen tenha renunciado e a Gates Foundation tenha pedido desculpas, o impacto nas vidas das mulheres envolvidas permanece como a ferida aberta do caso. A pergunta que persiste não é apenas sobre o que as instituições sabiam, mas sobre o que elas escolheram ignorar em nome da conveniência. Até que ponto o desejo por grandes doações cegou lideranças que, em teoria, deveriam ser os guardiões da ética internacional? A resposta a essa questão continua sendo evasiva, à medida que os arquivos do Departamento de Justiça revelam camadas de cumplicidade e negligência que ainda não foram totalmente digeridas pelo público.

O que observaremos nos próximos meses é como essas instituições tentarão reformular suas políticas de integridade. A sombra de Epstein não desapareceu com sua morte; ela permanece como um lembrete do que acontece quando o poder é exercido sem escrutínio. O que resta, além das investigações, é o silêncio de muitas dessas vítimas que, agora, observam de longe a tentativa das grandes organizações de apagar as pegadas deixadas pelo financista. A história, contudo, já revelou que a fachada de prestígio era, na verdade, uma prisão.

Com reportagem de Fortune

Source · Fortune