Em Viena, um dos mais tradicionais palcos da música erudita se tornou também uma das mais inusitadas galerias de arte contemporânea. Há quase três décadas, a Ópera Estatal de Viena, em parceria com a organização cultural museum in progress, comissiona um grande artista para transformar sua cortina de segurança — o pesado anteparo que protege a plateia em caso de incêndio — em uma obra de arte monumental. A iniciativa, batizada de 'Safety Curtain', renova-se a cada temporada.
O projeto, que começou na temporada 1998/1999 com uma instalação da artista americana Kara Walker, já anunciou sua 29ª edição, que será assinada pelo pintor austríaco Herbert Brandl para a temporada 2026/2027. A leitura aqui é que a iniciativa vai além da decoração: ela institucionaliza um diálogo tenso e produtivo entre a arte visual, estática por natureza, e a arte cênica, definida pelo movimento e pela performance, como aponta a publicação de design e arquitetura Designboom.
A tela como quarta parede
A proposta do 'Safety Curtain' explora a dupla função da cortina. De um lado, um equipamento de segurança; de outro, a materialização da 'quarta parede', a barreira física e metafórica que separa o mundo da ficção e o da realidade do espectador. O desafio para os artistas, como notou a curadora Bice Curiger em um texto sobre o projeto, é criar uma mensagem pictórica potente o suficiente para se impor em um ambiente de distração, onde o público aguarda o início do espetáculo.
A obra não é o evento principal, mas o enquadra. Ela é visível antes do início da ópera, durante o intervalo e após o fechamento final das cortinas. Essa cadência de visualização, distinta da experiência de um museu, permite que a obra se revele em momentos diferentes, dialogando com a expectativa e a memória da performance. A monumentalidade da tela, que ocupa todo o proscênio, confere à arte um impacto imediato, mesmo que sua apreensão completa se dê aos poucos.
Da crítica de Walker ao iPad de Hockney
A diversidade de abordagens é uma marca do projeto. A obra inaugural de Kara Walker utilizou suas características silhuetas para confrontar a violenta história da escravidão nos Estados Unidos, inserindo uma densa camada de crítica social no ambiente opulento da ópera. Em um caminho distinto, a cortina de David Hockney para a temporada 2012/2013 foi uma celebração da própria tecnologia e do teatro: uma vibrante composição criada em um iPad que retratava um palco dentro do palco.
Outros artistas exploraram diferentes caminhos. Rirkrit Tiravanija usou a imagem de uma carta de teste de televisão com a frase 'Fear Eats the Soul', referência a um filme de Fassbinder, enquanto Anselm Kiefer apresentou uma pintura cósmica e texturizada. A seleção de Herbert Brandl para a temporada 2026/2027 aponta para uma abstração inspirada na imagem da Terra vista do espaço, o chamado 'overview effect'. Cada artista, a seu modo, reinventa a moldura sobre a qual a ópera acontece.
Ao fim, o legado do 'Safety Curtain' não está nas obras individuais, mas na constância do gesto. A cada ano, a Ópera de Viena reafirma que a fronteira entre as artes é um espaço a ser ocupado e questionado. A cortina que sobe e desce não apenas demarca o início e o fim do espetáculo, mas se torna um prólogo visual que expande a própria definição de uma noite na ópera.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





