Numa galeria do Mass MoCA, dois longos tubos de papel amarelo repousam no chão. A primeira leitura é imediata, quase infantil: são pernas. Mas um olhar mais atento desfaz a antropomorfia. A única dobra, perto da parede, não tem nada de anatômica. Em outra sala, luminárias de teto pendem desligadas, seus cabos soltos e pesados, transformando o que deveria ser luz em peso morto. A obra de Michael E. Smith opera nesse território de estranhamento. Ele toma objetos ordinários e os torna misteriosos, esvaziando sua função para preenchê-los de uma nova, e enigmática, ressonância.

Por trás dessas instalações está um artista que, por uma década, cultivou o silêncio como método, evitando entrevistas e deixando que a obra falasse por si. Agora, em uma rara e extensa conversa com a publicação ARTnews, Smith quebra o voto de silêncio. A entrevista revela que sua arte não foge da linguagem; ela funciona como uma. Trata-se de uma espécie de poesia material, que embaralha a semiótica do cotidiano para encontrar ritmo, rima e significado onde a maioria só vê refugo. A leitura aqui é que, para Smith, a recusa em explicar a obra era parte da própria obra: um convite para que o espectador se entregasse à experiência sem o mapa do discurso.

A poesia do refugo

Smith se descreve, em parte, como um “detetive espiritual”, mas um que opera com os pés no chão. “As coisas me escolhem”, afirma. A gênese de seu trabalho com objetos encontrados — de peças de carro a caixas de iPhone e ossos de animais — tem raízes pragmáticas. No início da carreira, a falta de dinheiro ditava os materiais. Hoje, a prática se tornou uma filosofia. O que poderia ser visto como uma narrativa simplista do “artista de Detroit trabalhando com detritos pós-industriais” revela-se um processo mais profundo, uma busca por combustível criativo no que está à mão, seja um item gratuito da Craigslist ou uma bigorna recebida de presente pelo filho — como a que inspirou sua aclamada instalação na Bienal de Veneza.

A conexão mais forte, no entanto, não é com a indústria, mas com a poesia. “Li mais poesia do que qualquer outra coisa”, diz ele. Para Smith, um poema é a forma de arte que mais se distancia de sua função utilitária, uma ideia que ele transporta para a escultura. Suas exposições são construídas como canções ou poemas, com ritmos e repetições que criam um campo semântico próprio. Uma obra em sua mostra no Mass MoCA, intitulada More Bounce, é uma referência direta à canção “More Bounce to the Ounce”, da banda Zapp. O ritmo, para ele, não é uma metáfora. “O ritmo é o material com o qual estou trabalhando”, declara, solidificando sua posição como um escultor-poeta que compõe com objetos em vez de palavras.

“Não quero ter um emprego”

Talvez a revelação mais contundente da entrevista seja a filosofia de vida que sustenta a arte. Smith cita uma canção de blues de Son House: “Vou me juntar à Igreja Batista... para não ter que trabalhar”. A frase, que poderia soar como apologia à preguiça, é, para ele, um manifesto. “Eu não me importo de trabalhar. Eu não quero ter um emprego”, distingue. Ele ecoa as ideias do antropólogo David Graeber sobre “bullshit jobs” (empregos inúteis, em tradução livre), argumentando que o sistema força as pessoas a gastarem seu tempo em atividades sem alma, distantes da beleza e da verdade.

Essa filosofia se reflete em sua prática. Ele não tem “assistentes”, mas “colaboradores”, geralmente jovens artistas com quem estabelece uma troca. Seus filhos participam ativamente do processo, não como mão de obra, mas como parte de um ecossistema criativo onde vida e arte são indissociáveis. A meta, segundo ele, é “caminhar com elegância” e ser “o mais inofensivo possível”. Essa busca por uma existência menos predatória e mais autêntica é o motor que o leva a vasculhar o mundo em busca de materiais que, como ele, parecem existir à margem do sistema produtivo.

Ao final, a obra de Smith — com suas caixas fechadas, telas empilhadas e objetos de função suspensa — parece ser um espelho de sua visão de mundo. É uma arte que não oferece respostas fáceis, mas que convida à contemplação da complexidade. Em um tempo que exige posicionamentos binários e produtividade incessante, o trabalho de Michael E. Smith é um ato de resistência silenciosa. Sua recusa em “ter um emprego” é a mesma recusa de sua arte em ser apenas uma coisa, com um único significado. É um convite para, simplesmente, estar presente e observar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews