As imagens de Tulsa, o fotolivro de Larry Clark de 1971, são claustrofóbicas e atemporais. Jovens em interiores apertados, agulhas, armas, sexo e apatia. A obra se tornou um marco na história da fotografia por sua crueza, um suposto retrato universal da rebelião juvenil e do vício. Mas o que parece universal é, na verdade, profundamente local. A história não contada de Tulsa não está apenas nas veias de seus personagens, mas no asfalto e no concreto que redesenharam a cidade que dá nome ao livro.

Longe de ser um documento sobre uma geração perdida, a obra de Clark é um subproduto de políticas públicas desastrosas. Uma análise publicada pela revista Aperture reposiciona o trabalho do fotógrafo não como um ensaio sobre a condição humana, mas como o registro de uma falha social e urbana. Entre 1962 e 1971, enquanto Clark fazia suas imagens, a cidade de Tulsa, em Oklahoma, era rasgada pela construção de uma via expressa que formalizou uma segregação social e econômica há muito latente, com consequências que perduram até hoje.

A cidade partida

Tulsa já era uma cidade dividida. A riqueza gerada pelo petróleo no início do século XX concentrou-se no sul, em terras adquiridas do povo Muscogee, onde banqueiros e executivos construíram suas mansões. O norte, por sua vez, tornou-se uma enclave operária, abrigando trabalhadores das indústrias de petróleo, gás e aviação. A construção da Crosstown Expressway na década de 1960 foi o golpe que selou essa divisão. A autoestrada foi planejada para ligar os novos subúrbios ao centro, mas seu traçado atravessou e demoliu bairros inteiros no norte.

O impacto é frequentemente analisado sob a ótica racial, como o golpe final contra o histórico distrito negro de Greenwood, quase 50 anos após um massacre racial. Contudo, a via expressa também destruiu bairros operários brancos, o ambiente da juventude de Clark. A desindustrialização, que já começava a esvaziar a economia local com a fuga de empresas para o Texas, encontrou na nova infraestrutura um catalisador para o abandono. A "renovação urbana" promovida pelo governo federal e local, na prática, acelerou a decadência.

Do pincel à seringa

O percurso de Clark espelha a transformação da cidade. Vindo de uma família de classe média, ele foi transferido para uma escola "do outro lado dos trilhos", onde conheceu os filhos de operários que se tornariam os protagonistas de suas fotos. A própria família Clark foi vítima da política urbana: a casa onde cresceu foi desapropriada para a construção da estrada e vendida como sucata. Foi nesse contexto de desagregação pessoal e comunitária que Clark começou a fotografar seu círculo de amigos e o uso de drogas.

As imagens, portanto, capturam mais do que o drama individual. Elas documentam o vácuo deixado por um projeto de desenvolvimento que priorizou o fluxo de carros em detrimento de comunidades. Programas federais da "Guerra à Pobreza" destinados a combater o crime e o desemprego na região acabaram, ironicamente, financiando a realocação de moradores para abrir caminho para o asfalto. O bairro de um dos personagens do livro, David Roper, tornou-se um distrito de prostituição. As ruas que ladeavam a via expressa tornaram-se indesejáveis.

O fotolivro de Clark foi publicado em 1971. Um ano depois, a última seção da autoestrada foi concluída, consolidando a ruína dos bairros operários do norte de Tulsa. A obra que o mundo da arte leu como um grito existencial era, em sua origem, o eco de retroescavadeiras e de uma fratura social planejada. Décadas depois, a cidade e a Nação Cherokee anunciaram investimentos para revitalizar a área. Resta saber se é possível reconstruir o que uma autoestrada destruiu.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Aperture