Em Washington, um andaime e uma lona cobrem uma ferida na fachada de mármore do Kennedy Center. Onde antes se lia o nome de Donald Trump, agora há um vazio provisório, um espaço em disputa que encapsula uma das mais peculiares batalhas culturais da política americana recente. A briga não é sobre tijolos e argamassa, mas sobre legado, poder e a santidade da memória pública.

A sombra de um nome

A saga recomeçou quando o conselho do centro de artes, hoje alinhado a Trump, votou para reinserir o nome do ex-presidente na fachada. A inscrição proposta é grandiosa: “The John F. Kennedy Center for the Performing Arts Restaurado e Renovado Pelo Presidente Donald J. Trump”. Segundo a resolução, a instituição estaria em “ruína financeira sem a estatura única do Presidente Trump como um arrecadador de fundos e desenvolvedor de classe mundial”. A proposta inclui ainda renomear a praça em frente ao edifício.

A lei contra o poder

O movimento, no entanto, desafia diretamente a lei e a justiça. Em 1964, o Congresso americano designou o centro como um “memorial vivo” a John F. Kennedy, proibindo explicitamente que ele se tornasse um memorial a qualquer outra pessoa ou que outro nome fosse adicionado ao exterior do prédio. Com base nesta lei, um juiz federal já havia ordenado a remoção do nome de Trump em maio, uma decisão que foi cumprida. Para a deputada Joyce Beatty, que lidera a oposição à medida, a nova tentativa é uma “clara violação” da ordem judicial.

Enquanto os advogados debatem nos tribunais, o andaime permanece. A gestão do centro alega que a estrutura é necessária para reparos, mas ela serve como um poderoso símbolo da disputa em aberto. A questão que paira sobre o rio Potomac não é apenas qual nome prevalecerá no mármore, mas o que a própria batalha revela sobre a memória que uma nação escolhe, ou é forçada a, preservar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company