A voz na cabeça sussurra: se não estiver provocando, talvez eu nem exista. O instinto, condicionado pelo patriarcado e pela curadoria incessante do Instagram, sugere que um 'thirst trap' — uma foto intencionalmente sedutora — é a prova máxima de vida. Em 2026, o auge da 'internet face', o 'looksmaxxing' e a postagem tardia definem o cenário. O feed, um turbilhão de rostos perfeitos, roupas impecáveis e conteúdo efêmero, reforça a ideia de que uma pele de vidro e olhos grandes são ideais. Ser percebido como atraente, nessa lógica distorcida, oferece uma sensação de segurança, de não ser esquecido ou rejeitado. A cada rolagem, a imagem de meninas com maçãs do rosto proeminentes e cinturas finas se repete, e a carne e os ossos imploram por reconhecimento. A solução? Encontrar a luz certa, traçar os lábios e, após centenas de selfies, escolher uma para provar: 'Eu estou aqui'.

A primeira vez que essa equação — beleza digital igual à segurança — se cristalizou foi durante um crush avassalador. Apaixonar-se, para uma mulher, pode ser perigoso, pois pode levar à crença de que postar é uma ferramenta de sucesso romântico, um chamado de acasalamento, um sinal de alerta. À medida que o interesse amoroso se intensificava, a autora se viu trabalhando horas extras no departamento de selfies, questionando a própria sanidade. A canção "Thirst Trap" de Audrey Hobert captura essa exaustão cerimonial de perseguir a definição de 'hotness' do algoritmo em nome do amor, explorando como a busca por aprovação masculina — um 'like' ou uma visualização de Story — pode gerar um sentimento de superficialidade e tolice. Uma conexão que ressoa profundamente.

O Espelho da Validação Online

Não há culpa em cair na ilusão de que o valor de uma mulher está atrelado à sua conformidade com o 'male gaze' da internet. Vivemos em um mundo que nos faz sentir invisíveis se nosso avatar digital não estiver constantemente presente na tela. As identidades online se tornaram 'horcruxes', nossos rastros digitais e nós mesmos inextricavelmente ligados. Filtros de IA, FaceTune e a própria 'internet face' estreitaram nosso limiar estético, facilitando a manipulação da aparência para atender a padrões de beleza milenares. Escapar disso exigiria uma força bruta, uma diligência mental ímpar, talvez até a adoção do ludismo. Contudo, é inegável que há algo de empoderador em dominar a própria imagem. Celebrar uma amiga que ilumina o feed com sua 'hotness' é gratificante, e até mesmo admirar um 'thirst trap artist' — onde 'artista' é a palavra-chave — tem seu mérito.

Terrence O'Connor, diretor criativo e fotógrafo, conhecido por seu trabalho com Charli XCX, exemplifica essa fusão entre arte e a performance online. Ele usa o Instagram como seu meio, servindo o olhar da internet com seus abdominais definidos, mandíbula esculpida e um bronzeado impecável. "Não estou tentando fazer muito com isso", ele confessa sobre sua prática. "Os 'thirst traps' são importantes porque há uma inflação de 'hotness'. 2026 é o ano em que a beleza disparou como efeito colateral do Ozempic, do 'looksmaxxing' e do aumento da cirurgia plástica. Ser 'hot' hoje significa dar tudo de si o tempo todo." Ele relata que, cinco anos atrás, em um relacionamento, não postava seus abdominais, em parte por não tê-los, mas principalmente por estar mais feliz. "Acho que é uma parte essencial de ser uma pessoa online. Ninguém mais pode ser feio. Eles te matam." Embora mais feliz em seus dias de não postagem, ele se considera menos atraente. Ser 'hot' online, segundo ele, gera dopamina, mais trabalho, mais amigos, mais dinheiro. "Sua paz interior está de alguma forma relacionada ao quão obcecado você está com sua aparência e em documentá-la", acrescenta. "É um ciclo. Você é 'hot' porque está infeliz, ou infeliz porque é 'hot'? Um dia vou mudar e voltar a não ser 'hot'. Até lá, postar está melhorando as coisas."

Para Além do Espelho Digital

Trocar de perspectiva e não sentir mais a necessidade de ser 'hot' online soa libertador. A autora se pergunta quando o impulso de participar cessará. Continuará postando selfies daqui a cinco, dez anos? Como parte da geração 'paciente zero' do Instagram, que entrou na plataforma antes dos 18 e agora está na casa dos trinta, ela busca exemplos de quem abandonou essa prática. Algumas amigas pararam de postar após casar e ter filhos, mas isso valida a noção patriarcal de que a maternidade isenta a mulher da necessidade de provar sua 'hotness'. Outras pararam ao atingir certo nível de sucesso e notoriedade, sugerindo que outra saída é provar valor capitalista — mais um padrão patriarcal. A autora se encontra em um meio-termo: posta, sua postagem está ligada ao trabalho, não acredita totalmente que sua estética online defina seu valor, mas também não está 'logoff'.

Um grupo de amigas frequentemente analisa a atividade online de desconhecidos. Discutir os hábitos de postagem de alguém é uma forma elevada de fofoca. Um print de um 'thirst trap' é acompanhado por uma hipótese: "Está dando solteira". A autora confessa ter participado do ritual pós-término de postar, um sinal para o público de que ela existe. Ela já segurou o iPhone em um ângulo específico, com um olhar ligeiramente vazio, como tantas outras. Já se postou em frente ao espelho, com calças de cintura baixa que sugerem exatamente o que se espera. Em seu aniversário, postou uma foto de biquíni, simplesmente porque ama ser mulher e participar desse comportamento quintessencialmente feminino. Devon Lee Carlson, Allegra Samsen e Victoria Villarroel são citadas como artistas favoritas nesse panteão do 'thirst trap', lembrando que ser 'hot' online pode ser inofensivo. Mas por que acordar com um sentimento de leve nojo de si mesma? Seria apenas mais uma garota seguindo os passos previsíveis para lembrar à sociedade que ela está ali e é atraente? E para quê?

A Performance Inevitável

A única cura encontrada foi o 'Bricking' — um período de cinco dias offline — para se sentir limpa da performance. Katarina Zhu, atriz e diretora de "Bunnylovr", mostra-se cada vez menos tentada a participar da performance semi-histérica da 'hotness' online. Em seu filme, Zhu explora a relação entre personas online e offline, interpretando Rebecca, uma assistente pessoal que trabalha como 'webcam sex worker' à noite. "O que acontece quando você vive com a internet por tanto tempo é que todos nós reconhecemos a performance e, como resultado, levamos isso muito menos a sério ao participar", diz ela.

Zhu reconhece que é humano buscar validação externa, mas igualar poder à desejabilidade, especialmente sob o 'male gaze', ainda centra o desejo masculino em vez de nós mesmas. A pressão para se manter jovem e 'hot' online se torna cada vez mais absurda com a idade. "Quanto mais velha fico, menos disposta estou a simplesmente aceitar isso como a ordem do dia", ela afirma. "Sinto que consegui acumular poder de outras formas, como através do trabalho, mas isso é outra questão."

Para Zhu, a distinção entre identidades digitais e reais tornou-se mais óbvia com o tempo. Quanto mais vemos essa performance se desenrolar, menos convincente ela se torna. "O mercado está simplesmente saturado", ela acrescenta. "Tem 'baddies' em todo lugar que você olha. Você não conseguiria escapar delas nem que tentasse."

Se uma presença na internet é, por natureza, uma performance, então um 'thirst trap' não é mais do que uma cena em uma peça. Jia Tolentino, em seu ensaio "The I in Internet" de "Trick Mirror", descreveu a ligação entre nossas identidades online e a performance: "Como meio, a internet é definida por um incentivo de performance embutido. Na vida real, você pode andar por aí vivendo a vida e ser visível para outras pessoas. Mas você não pode simplesmente andar por aí e ser visível na internet — para que alguém te veja, você tem que agir." Cada postagem, então, vem com uma intenção, mesmo que sutil, mesmo que nós, os que postamos, não a percebamos. Mesmo que a autora tenha caído nas ilusões da internet, ela se sente aliviada em saber que obedecer cegamente às regras do jogo de ser uma mulher online não parece certo em seu corpo. Ela está bem em participar ocasionalmente da postagem tardia com um ar lobotomizado e um olhar voltado para o 'male gaze', desde que sua consciência esteja intacta.

Dia Lupo, escritora da newsletter de beleza alternativa "Broke But Moisturized", concorda que um senso de agência, aliado à consciência, pode ser o único antídoto. "Se você imaginar a persona online como um arquivo com várias pastas, os 'thirst traps' compõem a pasta sexual, como em, é assim que quero ser sexualizada", ela explica. "É apenas mais um braço do eu curado e aspiracional — um meio de controlar a narrativa sobre quem somos e como somos vistas."

Lupo conta que faz 'thirst traps' há tanto tempo quanto escreve na internet — mais de uma década — e que, para ela, é também um meio de fazer as pessoas lerem seu trabalho. E embora ela esteja disposta a 'trappar' com agência, ela traça a linha na edição pesada. "Lembro-me de borrar algumas celulites no meu bumbum há uns oito anos. Gostaria de poder voltar no tempo e me dizer: isso é uma coisa estúpida pela qual se preocupar."

Como Hobert, a autora se sente entediada quando pensa demais em sua presença online. Como O'Connor, ela sabe que um dia se afastará de seu avatar. E como Tolentino, ela desconfia do aspecto inerentemente performático da internet. Na década que se passou desde que ela tão habilmente analisou a natureza das redes sociais, nos dizemos que ser autêntico online é agora preferido a uma imagem curada. Mas se ainda somos incentivados a fazer 'thirst traps', a aparecer 'hot' mas agora com facilidade sem esforço e com trabalho quase indetectável, algo realmente mudou?

Enquanto ainda está no vórtice, a autora mantém um olho na linha tênue que separa seu eu real da identidade que projeta online, aquela manipulada inconscientemente para satisfazer regras que nem são suas. Ela está silenciando a voz em sua cabeça. Desconecta quando percebe que sua realidade está escorregando. Quase nada se perde quando ela se vê fora da matrix. Não há lembrete melhor de que ela existe.

Com reportagem de Brazil Valley

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