Afzal Khan, um fotógrafo baseado em Kathmandu, encontrou na fotografia um antídoto para a agitação de uma carreira de sucesso em publicidade. Seu trabalho, que busca histórias em rostos, lugares e momentos que a maioria ignora, foi recentemente perfilado pela publicação especializada DPReview, revelando uma jornada que vai muito além da técnica ou do equipamento.
O que começou como um hobby de infância na era do filme fotográfico transformou-se em uma necessidade. No auge de sua carreira como diretor de criação, por volta de 2010, Khan sentiu o peso do estresse e buscou um refúgio. A fotografia, segundo ele, tornou-se "quase um remédio", uma forma de se afastar da pressão, observar o mundo em um ritmo mais lento e encontrar paz. Essa transição define a essência de seu trabalho: não uma busca por fama ou seguidores, mas uma prática de introspecção e conexão.
Do caos da agência à calma do obturador
A trajetória de Khan é um estudo de caso sobre a ressignificação do trabalho. Como diretor de criação, ele passava horas observando fotógrafos renomados no Nepal, absorvendo a técnica do outro lado da câmera. No entanto, foi ao empunhar seu próprio equipamento, inicialmente uma Sony A230, que ele começou a desenvolver um olhar autoral. A fotografia lhe deu a permissão para desacelerar em um ambiente profissional que exigia aceleração constante.
Essa filosofia se reflete em sua abordagem. Khan se descreve não por um gênero fotográfico, mas como um "contador de histórias". Ele é atraído por lugares esquecidos e pessoas comuns, acreditando que os momentos mais insignificantes escondem as narrativas mais profundas. Sua preferência por locais mais silenciosos, como Lumbini, o local de nascimento de Buda, e o antigo reino de Mustang, ajudou a moldar essa visão. Nesses lugares, ele relata ter aprendido a sentir histórias até mesmo nas paisagens, transformando a fotografia de um ato de captura para um ato de percepção.
A técnica a serviço da alma
Recentemente, Khan trocou sua câmera Sony A7R IV por uma Hasselblad X1D II. A mudança é emblemática. Enquanto a Sony é conhecida por sua velocidade e versatilidade, a Hasselblad de médio formato incentiva um processo mais lento e deliberado. A decisão não foi puramente técnica, mas um alinhamento entre ferramenta e filosofia. É mais um passo em sua busca por uma prática fotográfica mais consciente e menos reativa, complementada por uma bolsa com poucos acessórios para manter o foco na observação.
Seu conselho para outros fotógrafos é direto: "fotografe com o coração, não apenas com o cérebro". Em uma era de pós-produção digital e inteligência artificial nas câmeras, ele defende que a fotografia se cria no momento do clique, através da conexão emocional com o sujeito. Para Khan, encontrar "a sua luz" e sentir o momento é mais importante do que a perfeição técnica. Essa relação íntima com o processo, a ponto de conversar com sua câmera, é o que, para ele, eleva uma imagem de um registro a uma história pessoal.
A jornada de Afzal Khan é um lembrete de que, em um mundo saturado de imagens, o valor pode não estar no que é visto por todos, mas naquilo que é percebido por poucos. Seu trabalho em Kathmandu não apenas documenta uma cultura, mas oferece um modelo de como a criatividade pode ser um caminho para uma vida mais examinada, onde as histórias mais poderosas são, muitas vezes, as mais silenciosas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · DPReview





