A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu à farmacêutica brasileira EMS o registro do primeiro medicamento genérico à base de semaglutida no país. A aprovação, um marco para o mercado farmacêutico nacional, tem como referência o Ozivy, uma versão de semaglutida sintética desenvolvida e lançada pela própria EMS em junho deste ano. Na mesma decisão, a agência liberou um produto similar da Germed, que será vendido sob o nome Semaclique.

O movimento sinaliza uma nova fase na disputa pelos análogos de GLP-1, classe de medicamentos que ganhou notoriedade global com o Ozempic e o Wegovy, da Novo Nordisk, tanto por sua eficácia no controle do diabetes tipo 2 quanto pelo seu efeito na perda de peso. A chegada de uma versão genérica promete atacar o principal obstáculo para a popularização do tratamento: o custo elevado.

O xadrez do acesso e do preço

A principal implicação da decisão da Anvisa é a ampliação do acesso. Por lei, medicamentos genéricos devem ser comercializados com um preço no mínimo 35% inferior ao do produto de referência. Considerando que o Ozivy foi lançado com valores a partir de R$ 452, o genérico da EMS poderia chegar às farmácias por cerca de R$ 294. Essa redução é substancial para um tratamento de uso contínuo, como é o caso do diabetes, e pode viabilizar a adesão e a manutenção da terapia para uma parcela maior da população.

É crucial notar, contudo, que a indicação aprovada pela Anvisa para o genérico é restrita ao tratamento de diabetes tipo 2 em adultos, como um complemento à dieta e exercícios. A agência não incluiu a indicação para obesidade, que exige dosagens diferentes. Ainda assim, como aponta o endocrinologista Fernando Valente em entrevista ao veículo que reportou o fato, mesmo em doses menores a semaglutida promove perda de peso, sugerindo que a novidade pode ter repercussões indiretas no tratamento da obesidade, possivelmente via uso off-label, uma prática que depende de avaliação médica criteriosa.

Estratégia local e o mercado futuro

A estratégia da EMS é notável. Ao lançar um medicamento de referência próprio (Ozivy) e, na sequência, registrar sua versão genérica, a empresa se posiciona para competir em duas frentes: estabelece uma marca e, ao mesmo tempo, prepara uma ofensiva no segmento sensível a preço, desafiando a hegemonia de players globais. O movimento antecipa a eventual quebra de patentes dos medicamentos mais conhecidos e posiciona uma empresa nacional na vanguarda da popularização da semaglutida.

A chegada do genérico, mesmo que limitado ao diabetes, aquece o debate sobre o futuro do tratamento da obesidade no Brasil. A maior disponibilidade e o menor custo da molécula podem pressionar todo o sistema, desde os preços dos concorrentes até a eventual inclusão de terapias do gênero em planos de saúde públicos e privados. O cronograma de chegada às farmácias ainda depende de trâmites regulatórios e de precificação, mas a barreira inicial para a democratização da semaglutida no país acaba de ser rompida.

O impacto imediato será sentido por pacientes com diabetes, mas o mercado observa atentamente os desdobramentos. A questão que fica é quão rápido essa mudança de preço se traduzirá em uma mudança de escala no tratamento de uma das condições de saúde mais prevalentes no Brasil e no mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney