Nos subúrbios de Ghent, na Bélgica, uma residência familiar assume a forma de um cubo de tijolos que remete a antigas estruturas industriais. Projetada pelo escritório Atelier Vens Vanbelle, a casa foi apelidada de "A Fábrica" pelos vizinhos, uma alcunha que captura a essência de sua estratégia de design: simular a preexistência de um galpão para se integrar à paisagem urbana.

Segundo reportagem da publicação de design e arquitetura Dezeen, a escolha estética foi uma resposta inteligente a uma restrição da prefeitura. Os arquitetos pretendiam construir junto a um muro cego no limite do terreno, mas foram obrigados a projetar uma casa isolada. A solução foi criar um volume que parecesse "ter sempre estado ali", mimetizando a arquitetura fabril local e transformando um obstáculo burocrático no conceito central do projeto.

O eixo diagonal como coração do projeto

Se por fora a casa é um cubo ortogonal e sóbrio, seu interior revela uma complexidade dinâmica. Todo o layout é organizado em torno de um vão central com uma claraboia em forma de diamante, que banha os dois andares de luz natural. O piso, as vigas do teto e até uma parede estrutural no térreo são orientados em um ângulo de 45 graus, alinhados a este vazio central.

Essa rotação interna não é um mero capricho estético. Segundo os arquitetos, o ângulo "cria uma perspectiva cativante, fazendo os espaços parecerem ainda maiores do que realmente são". A estratégia subverte a rigidez da caixa externa, gerando uma sensação de amplitude e fluidez incomum para uma planta quadrada. No térreo, uma parede diagonal separa a grande área de estar, jantar e cozinha de espaços de serviço, enquanto no andar de cima os quartos se organizam em torno de uma área multiuso que se debruça sobre o pavimento inferior.

A materialidade da memória industrial

A atmosfera de "oficina antiga" é reforçada pela paleta de materiais. Tijolos aparentes, telhas de barro, madeira e elementos metálicos, como a escada e o guarda-corpo amarelos, compõem um conjunto que o estúdio descreve como "bruto, mas ao mesmo tempo caseiro e familiar". A escolha deliberada por materiais com textura e história confere ao espaço uma sensação de permanência e calor, equilibrando a escala industrial com o aconchego doméstico.

Essa linguagem se estende ao jardim, onde uma estrutura secundária com paredes de tijolos perfurados serve como depósito e abrigo para bicicletas. A consistência material unifica o projeto, mostrando que a referência fabril não é apenas uma fachada, mas um princípio que permeia toda a obra.

O projeto do Atelier Vens Vanbelle é um estudo de caso sobre como restrições podem gerar inovação. Ao invés de simplesmente cumprir uma norma, os arquitetos a usaram como ponto de partida para uma narrativa arquitetônica que brinca com a percepção, a memória e a função, resultando em uma casa que é, ao mesmo tempo, uma máquina de morar e uma peça de design conceitual.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen