Em um beco estreito de Seul, uma residência de 1968 com um passado peculiar foi reinventada pelos arquitetos Isak Chung e Jinpyo Hong. Batizado de Saekdong House, o projeto não buscou modernizar a estrutura apagando sua história, mas sim incorporando suas estranhezas — incluindo um abrigo antiaéreo da época da Guerra Fria — em um novo e coeso arranjo espacial. A reportagem é da revista Designboom.
A intervenção é uma aula de reuso adaptativo e contabilidade arquitetônica. Em vez de simplesmente reformar, os arquitetos optaram por uma troca estratégica: a sala de estar original, que bloqueava a luz, foi demolida para dar lugar a um pátio central. O espaço de construção economizado foi então transferido para um novo anexo no quintal, transformando um problema em solução e trazendo ventilação e iluminação natural para o coração da casa.
A lógica do Saekdong
O nome do projeto, 'Saekdong', remete a uma técnica tradicional coreana de costurar retalhos de tecidos coloridos. A dupla de arquitetos transportou essa filosofia para a construção, permitindo que o velho e o novo convivam de forma distinta, mas complementar. A estrutura original foi reforçada com vigas de madeira aparentes, e um beiral em fibra de vidro verde-jade protege a circulação externa, criando um contraste material deliberado.
Essa lógica de "colcha de retalhos" permeia todas as escalas do projeto. Estrutura e acabamento, casa principal e anexo, interior e exterior são tratados como peças de uma mesma composição, sem a necessidade de uma uniformidade visual forçada. O resultado é uma residência que se sente montada intencionalmente, abraçando suas cicatrizes e peculiaridades como parte fundamental de seu caráter.
Da Guerra Fria ao design
O elemento mais singular da reforma é, sem dúvida, a transformação do abrigo antiaéreo subterrâneo, uma característica comum em casas daquela época em Seul, construídas sob a tensão com a Coreia do Norte. O que seria um estorvo em um projeto convencional tornou-se um ativo. O piso do bunker foi rebaixado para criar um pé-direito utilizável, e uma passagem rebaixada o conecta ao pátio, levando luz e vida a um espaço antes destinado ao confinamento e ao medo.
Este movimento converte um artefato histórico, um vestígio de um conflito geopolítico, em uma área funcional e integrada à rotina doméstica. É a expressão máxima do reuso adaptativo: em vez de esconder ou demolir, a arquitetura ressignifica o passado, transformando uma limitação histórica em um ponto de interesse e identidade.
O projeto Saekdong House demonstra que a boa arquitetura não reside em buscar uma tela em branco, mas em saber dialogar com as preexistências. Ao transformar as restrições de um lote urbano denso e as marcas do tempo em seus principais diferenciais, a obra oferece uma leitura sofisticada sobre como construir no presente sem apagar as camadas do passado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





