Quem caminha hoje pelas áreas centrais de Pequim nota um movimento que parecia distante: os estrangeiros estão de volta. A mudança é parte de uma estratégia deliberada do governo chinês que, ao flexibilizar regras de visto, envia uma mensagem clara ao mundo: venham e formem sua própria opinião sobre o país.

O movimento surge em contraponto à narrativa dominante no Ocidente, que retrata uma China cada vez mais fechada, focada na rivalidade estratégica com os Estados Unidos e na expansão de suas leis de segurança. A aposta de Pequim, segundo uma análise publicada pelo jornal britânico The Guardian, é que a exposição direta e a experiência pessoal dos visitantes podem ser uma ferramenta de soft power mais eficaz do que a diplomacia tradicional para modular sua imagem global.

Diplomacia do cotidiano

A estratégia opera em duas frentes distintas. No alto nível, as tensões geopolíticas, as restrições a jornalistas estrangeiros e a retórica de segurança nacional continuam a pautar as relações internacionais. É a China que domina as manchetes e as análises de risco nos mercados ocidentais.

Contudo, em um nível mais granular, o país parece investir na diplomacia do cotidiano. Ao facilitar a entrada de turistas — que não são especialistas em China, mas cidadãos comuns —, o governo cria as condições para uma nova onda de narrativas. Vídeos no YouTube com títulos como “A China me chocou” ou “Minha primeira semana na China” se multiplicam, geralmente focando na modernidade da infraestrutura, na segurança e nos contrastes culturais, gerando um contraponto orgânico à percepção de um regime puramente autoritário e isolado.

O cálculo econômico e a imagem

Por trás da ofensiva de charme, há também um pragmatismo econômico. O turismo internacional é um vetor importante para a entrada de divisas e um estímulo para o setor de serviços, que ainda busca recuperar o fôlego pós-pandemia. A volta dos visitantes é uma peça no complexo quebra-cabeça da reativação econômica chinesa.

No entanto, o ganho de imagem pode ser o ativo mais valioso no longo prazo. Pequim parece calcular que, para a maioria dos visitantes, a experiência de um país funcional, moderno e rico culturalmente irá se sobrepor às complexidades de seu sistema político. É uma abertura seletiva: as portas estão abertas para o turista, mas o escrutínio crítico da imprensa internacional continua sob forte controle. A questão que permanece é se essa exposição curada será suficiente para, de fato, remodelar a percepção global ou se será vista apenas como uma sofisticada campanha de relações públicas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Guardian UK Business