Em Rudong, uma cidade costeira ao norte de Xangai, uma estrutura de 150 metros de altura que se assemelha a um edifício em construção é, na verdade, uma das mais novas apostas para resolver um dos maiores gargalos da energia renovável: o armazenamento. Trata-se de uma bateria gravitacional, um sistema que começou a ser conectado à rede elétrica chinesa para guardar a energia excedente de um parque eólico vizinho.
Desenvolvido pela empresa suíça Energy Vault, o projeto EVx representa uma abordagem que retorna a princípios fundamentais da física para solucionar um desafio tecnológico de ponta. A tese é que, para garantir a estabilidade da rede elétrica, o mundo precisará de um portfólio diversificado de soluções de armazenamento, e nem todas dependerão da complexa e geopoliticamente sensível cadeia do lítio.
A gravidade como bateria
O conceito por trás da torre é elegantemente simples. Quando há excesso de produção de energia — por exemplo, em um dia de muito vento e pouca demanda —, o sistema utiliza essa eletricidade para erguer blocos de 35 toneladas até o topo da estrutura. Cada bloco suspenso armazena energia potencial gravitacional. Para descarregar a bateria, basta fazer o caminho inverso: os blocos são baixados de forma controlada, e a força da gravidade, ao movê-los, aciona geradores que convertem a energia cinética em eletricidade, devolvendo-a à rede.
Segundo informações da empresa reportadas pelo site Xataka, o sistema pode entregar uma potência de 25 MW por até quatro horas, totalizando uma capacidade de 100 MWh. Mais importante, a eficiência de ida e volta do processo (energia gasta para subir o bloco versus energia gerada na descida) supera os 80%. É um rendimento competitivo com outras formas de armazenamento mecânico e que não sofre com a degradação química que afeta as baterias tradicionais ao longo do tempo.
Uma alternativa ao lítio e à água
A tecnologia mais análoga à da Energy Vault é a das usinas hidrelétricas de bombeamento, que usam energia excedente para bombear água para um reservatório mais alto e a liberam para girar turbinas quando necessário. O sistema de Rudong, no entanto, dispensa a necessidade de grandes volumes de água e de condições geográficas específicas, embora exija uma estrutura física imponente e um alto investimento inicial.
O principal contraponto, contudo, é em relação às baterias de íon-lítio. Em um cenário de crescente demanda por minerais estratégicos, uma solução mecânica que utiliza resíduos industriais — os blocos podem ser feitos de concreto ou até mesmo de terra compactada — oferece uma via de menor dependência geopolítica. A vida útil estimada do sistema é de 35 anos, com manutenção reduzida e sem perda de capacidade de armazenamento. Embora uma única planta não vá substituir as gigafábricas de baterias, ela sinaliza que o futuro do armazenamento de energia pode ser um mosaico de diferentes tecnologias, incluindo algumas de uma simplicidade surpreendente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





