Em Santiago, boa parte do que hoje forma o anel pericentral da cidade não nasceu de projetos urbanísticos formais, mas de um processo precário de ocupação e autoconstrução que se estendeu dos anos 1960 aos 1980. Esta não é uma história isolada. Segundo um ensaio da pesquisadora Consuelo Araos para a Aeon Magazine, entre um quarto e um terço da população urbana da América Latina já viveu em condições de moradia informal durante a expansão das cidades no último século.

A narrativa convencional, muitas vezes adotada por governos e urbanistas, enquadra esse fenômeno com o que Araos chama de “vocabulário do déficit”: informalidade, superlotação, unidades habitacionais a serem contadas e completadas. A análise, no entanto, propõe uma inversão de perspectiva. O que se revela no campo é que essas casas, ruas e espaços públicos, montados coletivamente à mão ao longo de gerações, carregam marcas de uma história social, cívica e política que a terminologia técnica não captura.

Para além do déficit

A precariedade, nesse contexto, não é apenas uma ausência, mas uma condição que molda a própria definição de lar. As casas autoconstruídas, em sua constante evolução, revelam as condições essenciais sem as quais um lugar não pode ser verdadeiramente vivido como uma casa. Elas são o registro físico de configurações familiares, de redes de sociabilidade e de participação cívica que se formaram justamente em resposta — e apesar — da marginalidade.

O fenômeno das poblaciones chilenas ecoa a realidade de metrópoles brasileiras e de outras grandes cidades latino-americanas. A lógica da autoconstrução, que ergueu periferias inteiras, é menos um problema a ser erradicado e mais um processo orgânico a ser compreendido. Ignorar a complexidade social embutida nessas estruturas é tratar a cidade como uma planilha, e não como um organismo vivo.

A lição de Santiago é que, para intervir nesses espaços, é preciso primeiro aprender a lê-los. Em vez de impor soluções que partem da premissa do déficit, o desafio para o urbanismo contemporâneo é reconhecer e dialogar com a inteligência e a resiliência coletiva que já estão impressas nas paredes dessas cidades construídas à mão.

Com reportagem de Brazil Valley

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