Duas pequenas lâmpadas piscam no ritmo da respiração humana, suspensas por um fio. Ímãs as aproximam e afastam de forma aleatória, uma mímica das relações entre pessoas — ou comunidades. A instalação do artista taiwanês Jia-Jhen Syu é uma porta de entrada para a complexidade de seu local de exibição: a Treasure Hill Artist Village, em Taipei.

Escondido em uma área arborizada às margens do rio Xindian, o local é um experimento de “história viva”. O que antes foi um depósito de munição japonês e, depois, uma base antiaérea transformada em assentamento para soldados do Kuomintang em retirada, renasceu em 2010. Hoje, descendentes dos habitantes originais vivem lado a lado com artistas em residência, num delicado equilíbrio entre passado e presente.

Memória em cada viela

A história de Treasure Hill é a história da própria Taiwan em microcosmo. “Cada casa tem sua própria história”, disse ao Hyperallergic Yi-Chen Bai, que nasceu no local. Seu pai, um soldado de infantaria do Kuomintang, estava no lado perdedor da Guerra Civil Chinesa e recuou para a ilha em 1949. O governo via o assentamento como um acampamento militar temporário e tentou, sem sucesso, impedir que os soldados trouxessem suas famílias ou construíssem moradias permanentes. A comunidade cresceu de forma orgânica, teimosa, criando raízes em solo provisório. Essa tensão entre o oficial e o informal, o planejado e o vivido, ainda pulsa nas vielas estreitas da colina.

A arte como diálogo

É nesse cenário que a arte contemporânea busca seu espaço, não para apagar a história, mas para dialogar com ela. A inspiração para a obra de Jia-Jhen Syu, por exemplo, veio ao observar a própria Treasure Hill de uma ponte próxima. A residência artística não é um museu a céu aberto, mas um organismo vivo onde a criação contemporânea se alimenta das camadas de memória. As obras não estão apenas expostas; elas habitam o espaço, convivendo com as rotinas dos moradores que testemunharam todas as transformações do lugar. Cada instalação torna-se um novo capítulo na longa narrativa da colina.

O resultado é um lugar de fricção e harmonia. As luzes que piscam, imitando a respiração, talvez sejam a metáfora mais precisa para Treasure Hill: um pulso constante que mantém viva a conversa entre os fantasmas da guerra e as possibilidades da arte.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic