A Dívida Pública Federal (DPF) alcançou R$ 9,268 trilhões em junho, um crescimento de 2,61% em relação ao mês anterior, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional. O avanço foi impulsionado por uma emissão líquida de R$ 143,35 bilhões e, crucialmente, pela apropriação de R$ 85,16 bilhões em juros.

Mais do que um ajuste contábil, os números de junho sinalizam um encarecimento da gestão fiscal do país. A leitura é que o governo está pagando um preço mais alto para financiar suas operações e rolar seus vencimentos, um reflexo direto do aperto monetário global e das incertezas que pairam sobre a economia doméstica e internacional.

O preço da incerteza

O relatório do Tesouro é explícito ao conectar a alta no custo da dívida às “mudanças de expectativas no ciclo de política monetária” e à “postura mais dura do Fed”, o banco central americano. Na prática, isso se traduziu em um custo médio do estoque da DPF que subiu de 12,31% para 12,68% ao ano em apenas um mês. O custo das novas emissões também se manteve em patamar elevado, a 14,20% ao ano.

Nesse ambiente, a crescente concentração em títulos atrelados à Selic, que atingiram 49,3% do total, funciona como uma faca de dois gumes. Se por um lado atrai investidores que buscam proteção em momentos de volatilidade, por outro torna o custo do serviço da dívida imediatamente sensível a futuras decisões do Banco Central, amplificando o risco fiscal a cada reunião do Copom.

Menos prazo, mais risco

Outro indicador de alerta foi o encurtamento do prazo médio da dívida, que recuou de 4,07 para 4,01 anos. Um prazo mais curto obriga o Tesouro a voltar ao mercado com maior frequência para rolar seus compromissos. Em um cenário de juros altos e aversão ao risco, cada leilão se torna um teste de estresse para as contas públicas.

Embora o “colchão de liquidez” permaneça robusto, em R$ 1,346 trilhão — suficiente para cobrir 8,33 meses de vencimentos —, a combinação de custo elevado e prazo reduzido desenha um quadro desafiador. O governo se vê compelido a aceitar condições menos favoráveis hoje, apostando em uma melhora do cenário macroeconômico amanhã que ainda não está garantida.

Os dados de junho são menos uma fotografia e mais um trailer dos desafios fiscais à frente. Enquanto o Tesouro navega nas águas turbulentas da política monetária global, a questão de fundo permanece: como o Brasil irá equacionar o custo crescente de sua dívida com as demandas por gastos públicos e investimentos. A trajetória dos juros, aqui e lá fora, ditará o enredo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times