Vishal Garg, o fundador da fintech de hipotecas Better.com, foi destituído do cargo de CEO. A decisão do conselho de administração de substituí-lo por Daniel Lewis acontece quase três anos após o infame episódio em que Garg demitiu 900 funcionários em uma chamada de três minutos no Zoom, às vésperas do Natal de 2021.

A remoção do fundador ocorre em meio a um colapso financeiro da companhia, cujas ações caíram 93% em 2023 e o faturamento anual despencou de US$ 1,5 bilhão para US$ 70 milhões. O episódio serve como um poderoso estudo de caso sobre como falhas de liderança e crises de reputação podem ter consequências financeiras tangíveis e duradouras, mesmo no ecossistema de tecnologia, frequentemente tolerante com fundadores de personalidade forte.

O Preço da Reputação

A demissão em massa via Zoom não foi apenas um desastre de relações públicas; tornou-se um símbolo da cultura de crescimento a qualquer custo que azedou no cenário pós-juros zero. Embora Garg tenha se desculpado e sido brevemente reconduzido ao cargo em 2022, o dano à imagem da Better.com se provou permanente. Essa ferida reputacional agravou as pressões de um mercado já adverso, com a alta dos juros nos Estados Unidos impactando duramente o setor de financiamento imobiliário.

A derrocada da avaliação da empresa, de um pico de US$ 8 bilhões para os atuais US$ 300 milhões, não pode ser atribuída apenas ao ciclo macroeconômico. Ela reflete uma quebra de confiança de investidores, parceiros e do mercado em geral. O estilo de gestão que pode ser tolerado durante uma fase de hiper-crescimento torna-se um passivo inaceitável quando a empresa precisa de resiliência para atravessar uma crise.

Um Conto de Cautela

O drama corporativo ganha contornos de disputa de poder com a versão de Garg, que alega ter sido enganado por Lewis para perder o controle da companhia que fundou. Independentemente da veracidade das acusações, o fato é que o fundador, cuja imagem se fundiu à da empresa de forma negativa, não está mais no comando. Sua permanência no conselho, contudo, pode sinalizar atritos futuros.

A história da Better.com é um conto de cautela para fundadores e conselhos de administração, inclusive no Brasil. Demonstra que cultura corporativa e liderança empática não são apenas "soft skills", mas componentes críticos de gestão de risco. A aposta de Garg na inteligência artificial para otimizar processos era tecnicamente lógica, mas nenhuma tecnologia poderia consertar o problema fundamental: a ausência de confiança em seu líder.

A remoção de Garg não resolve, por si só, os problemas estruturais da Better.com, profundamente atrelados ao mercado imobiliário americano. A nova gestão herda uma companhia com valor de mercado dizimado e um legado tóxico. Se a mudança no topo será suficiente para orquestrar uma virada ou se é apenas o capítulo final de uma história de feridas auto-infligidas, ainda é uma questão em aberto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times