A corrida pela supremacia em inteligência artificial está gerando uma consequência inesperada e de grande impacto na matriz energética americana. Os Estados Unidos estão vivenciando um boom no desenvolvimento de usinas de energia a gás, superando a China em quase três vezes no volume de nova capacidade planejada. A força motriz por trás dessa expansão, segundo um novo relatório da organização de pesquisa Global Energy Monitor, é a demanda insaciável dos data centers.
Os números são expressivos. A capacidade de geração a gás em desenvolvimento nos EUA saltou 50% apenas no primeiro semestre de 2024, atingindo 378 gigawatts. Desse total, uma fatia substancial é destinada a alimentar diretamente a infraestrutura digital. O relatório identifica 189 gigawatts em projetos de gás planejados especificamente para data centers, um número que quase dobrou em seis meses. A leitura é clara: o avanço da tecnologia mais moderna do século está, paradoxalmente, sendo sustentado por um combustível fóssil.
O paradoxo do progresso
O epicentro dessa tendência é o Texas, que sozinho concentra 122 gigawatts de capacidade a gás em desenvolvimento — mais do que muitos países inteiros. Deste volume, quase dois terços, ou 77 gigawatts, são explicitamente para atender data centers. Este movimento coloca os EUA em rota de colisão com suas próprias metas climáticas e expõe uma divergência estratégica fundamental em relação à China. Pequim também expande sua infraestrutura de dados, mas impõe mandatos de energia limpa, exigindo que até 80% da eletricidade em seus principais hubs de data centers venha de fontes renováveis.
A aposta americana no gás, no entanto, não é um caminho sem obstáculos. O próprio relatório do Global Energy Monitor aponta que muitos desses projetos podem não sair do papel. Fatores como a resistência de comunidades locais, dificuldades de financiamento e gargalos na cadeia de suprimentos de turbinas podem inviabilizar parte dos planos. Mais da metade dos projetos ligados a data centers ainda não nomeou um fabricante de turbinas, um sinal de que parte do pipeline pode ser mais especulativo do que concreto.
Ainda assim, a direção do mercado é inequívoca. Mesmo que apenas uma fração desses projetos se materialize, eles irão selar emissões de gases de efeito estufa por décadas e pressionar os preços da eletricidade para consumidores e empresas. A corrida pela IA parece ter criado um apetite energético que, no momento, não distingue entre fontes limpas e fósseis, desafiando a narrativa de uma transição tecnológica puramente verde.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company




