A gestora global de ativos Schroders colocou números na euforia que cerca a inteligência artificial. Segundo uma nova análise da firma, a IA precisará gerar cerca de US$ 5,4 trilhões em valor anual para seus clientes até meados da próxima década. O objetivo: justificar o colossal investimento em infraestrutura que está sendo feito para sustentá-la.

O cálculo parte de uma projeção de US$ 9 trilhões em investimentos acumulados em data centers de IA entre 2026 e 2030. A análise da Schroders tenta, assim, ancorar a febre de investimentos em uma lógica de retorno financeiro, movendo o debate para além de analogias com revoluções tecnológicas passadas. A questão não é se a IA é transformadora, mas se o retorno econômico pode pagar pela sua própria fundação.

A matemática do retorno

O relatório da Schroders estabelece uma regra prática: para cada US$ 1 trilhão investido anualmente em infraestrutura de data centers, a IA precisa gerar aproximadamente US$ 1,2 trilhão em valor para o cliente final. Essa proporção é calculada com base em premissas de rentabilidade para toda a cadeia, incluindo operadores de data centers, desenvolvedores de modelos de linguagem e o próprio cliente, que espera um retorno sobre o custo de adoção.

Levando em conta a vida útil dos ativos, estimada em dez anos, a conta se torna ainda mais desafiadora: cada dólar de capital investido em infraestrutura deve, ao final, gerar cerca de US$ 6 em valor para o cliente. A análise oferece um balde de água fria na narrativa puramente tecnológica, lembrando que, por trás dos chips e algoritmos, a lógica do capital prevalece. O valor de US$ 5,4 trilhões anuais equivale a 4,5% do PIB global atual, uma cifra que dimensiona a escala da aposta.

Onde está o valor?

A análise estima que as aplicações de IA já identificáveis — como otimização de desenvolvimento de software, atendimento ao cliente e automação de tarefas administrativas — poderiam gerar entre US$ 2,2 trilhões e US$ 3,7 trilhões em valor anual. Isso cobriria apenas cerca de metade do necessário. O restante teria que vir de uma combinação de ganhos de produtividade, redução de custos, crescimento de receita e, crucialmente, de novas aplicações que hoje ainda não são claras ou quantificáveis.

Um ponto-chave é o descompasso temporal. Um dólar investido em um data center em 2025 pode levar três anos ou mais para se traduzir em valor tangível na ponta. Isso cria uma janela de risco onde o ciclo de investimento pode parecer irracional por vários anos, mesmo que eventualmente se prove rentável. A questão final, portanto, não é apenas se o valor será criado, mas quem na complexa cadeia de valor — dos fabricantes de chips aos provedores de nuvem e consultorias de implementação — conseguirá capturá-lo.

O estudo da Schroders não decreta se o boom da IA é uma bolha, mas oferece uma régua para medir a racionalidade dos investimentos. Para o ecossistema de tecnologia, a pergunta deixa de ser apenas se a IA vai mudar o mundo, e passa a ser se ela consegue pagar as contas da infraestrutura que está sendo erguida para si — e quem, no final, ficará com os lucros.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España