A consultoria McKinsey & Company publicou uma análise que inverte a lógica do debate sobre a infraestrutura energética para a era da inteligência artificial. Segundo o relatório, o maior risco para o setor elétrico dos Estados Unidos não é construir capacidade em excesso para uma demanda que pode não se materializar, mas sim o oposto: subinvestir e arriscar um déficit estrutural.
A tese é contraintuitiva. Mesmo que a bolha da IA desinfle e muitos dos data centers planejados nunca saiam do papel, a infraestrutura de geração e transmissão construída não seria um ativo perdido. Pelo contrário, serviria para fortalecer uma rede já pressionada e atender a outras fontes de crescimento, como a eletrificação industrial e de veículos, aumentando a resiliência do sistema como um todo.
O tamanho do déficit
Os números da McKinsey dão a dimensão do desafio. A consultoria estima que os data centers responderão por cerca de 75% do crescimento projetado da demanda de energia nos EUA na próxima década. Apenas para sustentar o ritmo atual de construção desses complexos, seriam necessários quase 30 GW de energia adicional por ano.
O problema é que a oferta não acompanha. O relatório projeta um déficit de capacidade em nível nacional entre 30 e 55 GW até 2030, considerando a aposentadoria programada de usinas a carvão e gás. Para mitigar o risco no curto prazo, concessionárias têm reativado plantas antigas e estendido a vida útil de outras, mas a McKinsey classifica essas medidas como paliativas e insuficientes.
Soluções fragmentadas
Diante da demora para obter conexão à rede, os próprios desenvolvedores de data centers buscam soluções. Muitos estão instalando geração de energia no local, principalmente com turbinas a gás natural. A pesquisa da McKinsey com líderes do setor indica que quase 60% deles esperam que os data centers mantenham essa geração própria até 2030, mesmo após a conexão com a rede principal se tornar disponível.
No horizonte, a energia solar combinada com baterias deve ganhar espaço, mas sua competitividade depende de políticas de incentivo e da queda contínua dos custos de armazenamento. Tecnologias como pequenos reatores nucleares modulares (SMRs) atraem capital, mas não devem ter impacto relevante na capacidade do sistema antes de meados da próxima década, deixando um vácuo no planejamento de médio prazo.
A conclusão da McKinsey é uma aposta estratégica: o custo de um possível apagão ou de restrições ao crescimento econômico é muito maior do que o de uma capacidade ociosa temporária. A questão para o setor de energia, portanto, não é se a bolha da IA vai estourar, mas como construir uma rede resiliente o suficiente para qualquer cenário.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





