A iminência de um novo ciclo do fenômeno El Niño, com 63% de chance de se manifestar de forma intensa até dezembro, está servindo como um catalisador para o mercado de climate techs no Brasil. Após um período marcado por enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul e secas severas na Amazônia, a percepção de risco climático no mundo corporativo parece ter atingido um ponto de inflexão.
O que antes era uma conversa sobre o futuro distante tornou-se uma necessidade operacional imediata. Startups que oferecem plataformas de inteligência e gestão de risco climático relatam uma aceleração sem precedentes no fechamento de contratos, sinalizando que a adaptação deixou de ser um conceito para virar uma linha no orçamento. A informação foi reportada pelo portal Startups.
Da teoria à prática: o risco como custo
A mudança mais tangível está na velocidade das negociações. Henrique Lucini Rocha, fundador da Fractal, especializada em inteligência hidroclimática, afirma que o ciclo de vendas de sua solução despencou de uma média de 540 dias para apenas 90. O movimento, segundo ele, ganhou força após a tragédia no Rio Grande do Sul, quando a vulnerabilidade de ativos físicos se tornou inegável.
Apesar do aumento na procura, o otimismo é contido. Para Mateus de Oliveira Lima, cofundador da i4sea, plataforma de gestão de risco climático com clientes em setores como energia e logística, o mercado brasileiro saiu de um patamar “péssimo” para um “muito ruim”. Lima critica a cultura de reatividade e a falta de cobrança regulatória sobre empresas que falham em se preparar, apontando que o socorro financeiro indiscriminado acaba por bonificar a inércia.
Adaptação: a nova palavra de ordem no capital
O eco dessa nova realidade já reverbera no ecossistema de venture capital. Danilo Zelinski, da KPTL, gestora que investe na i4sea e na Fractal, observa uma mudança no foco dos investimentos. A agenda da descarbonização, embora ainda crucial, agora divide espaço e recursos com a da adaptação climática. A demanda é puxada por setores estratégicos da economia, como agronegócio e energia, que sentem os efeitos diretamente em suas operações.
Mesmo em um cenário de juros altos que restringe o capital de risco, mecanismos como o programa EcoInvest, do Tesouro Nacional, ajudam a destravar investimentos em adaptação. A pressão regulatória, com o Banco Central passando a considerar a exposição a mudanças climáticas na análise de risco dos bancos, também força o mercado a se mover. A gestão de risco climático está deixando de ser uma opção para se tornar o mínimo necessário.
O El Niño funciona como o gatilho atual para um problema que é estrutural e permanente. A questão que fica é se essa nova urgência se consolidará em uma cultura de prevenção e resiliência de longo prazo, ou se o mercado voltará a relaxar até o próximo evento extremo bater à porta.
Source · Startups





