O primeiro impacto do novo ciclo de protecionismo americano já tem cifras no Brasil. As sobretaxas impostas por Washington sobre produtos brasileiros custaram cerca de US$ 400 milhões em exportações perdidas para a indústria química nacional, que viu suas vendas para os EUA caírem de US$ 2,2 bilhões para US$ 1,8 bilhão. O dado, divulgado pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), quantifica os efeitos das barreiras comerciais que somam uma sobretaxa de até 25% sob as seções 232 e 301 da legislação americana.

O episódio, no entanto, revela mais do que uma simples disputa comercial bilateral. Ele expõe as complexas e, por vezes, contraditórias engrenagens do comércio global na era da reindustrialização. A justificativa americana para as tarifas, baseada em alegações sobre a cadeia de suprimentos brasileira, é contestada não apenas aqui, mas dentro dos próprios Estados Unidos, sinalizando que a lógica política do protecionismo nem sempre se alinha à realidade econômica das cadeias produtivas.

O bumerangue tarifário

A principal ironia da medida está na reação da indústria americana. O American Chemistry Council (ACC), a congênere da Abiquim nos EUA, manifestou formalmente sua preocupação ao governo americano. Para a entidade, tarifas amplas sobre produtos químicos brasileiros podem aumentar os custos para diversos setores da economia local, enfraquecer cadeias de suprimentos e, no limite, dificultar os próprios esforços de reindustrialização que Washington diz promover. A leitura é clara: em um setor globalmente integrado, punir um parceiro comercial pode significar um tiro no próprio pé.

Essa dinâmica é reforçada pela balança comercial do setor, amplamente favorável aos EUA. Em um ano recente, os americanos exportaram cerca de US$ 11,5 bilhões em produtos químicos para o Brasil, importando pouco mais de US$ 2 bilhões — um superávit superior a US$ 9 bilhões. Para a Abiquim, não há fundamento econômico que justifique as tarifas, que parecem mais um instrumento de pressão geopolítica do que uma medida de correção comercial.

A resposta de Brasília

Do lado brasileiro, a reação segue o manual. O governo federal editou uma Medida Provisória, batizada de Brasil Soberano III, para criar linhas de crédito e apoiar as empresas afetadas. A Abiquim agora pleiteia que o setor químico seja enquadrado no programa para mitigar os prejuízos. A iniciativa é um paliativo necessário, mas essencialmente reativo, buscando remediar os danos de uma decisão tomada a milhares de quilômetros de distância.

O movimento evidencia a vulnerabilidade de setores exportadores brasileiros às oscilações da política comercial das grandes potências. Enquanto a diplomacia e as associações setoriais atuam para reverter a medida, a solução imediata recai sobre o Tesouro, em uma tentativa de manter a competitividade das empresas na marra.

A questão que permanece aberta não é apenas como a indústria química absorverá o impacto, mas como o Brasil se posicionará em um cenário global onde as regras do comércio são cada vez mais instrumentalizadas como armas em disputas estratégicas. A resposta definirá a resiliência de boa parte da economia exportadora do país.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times