O Banco Central Europeu (BCE) vai discutir o aumento das reservas mínimas exigidas dos bancos da zona do euro. A confirmação, feita pela presidente Christine Lagarde, dá tração a uma medida que pode dobrar a exigência atual de 1% sobre os depósitos, segundo reportagem da agência Reuters.

A discussão não é meramente técnica. O movimento é uma tentativa de mitigar um problema criado pelo próprio BCE: as perdas financeiras em seu balanço e nos balanços dos bancos centrais nacionais, um efeito colateral direto do ciclo de alta de juros após uma década de estímulos monetários agressivos.

O paradoxo da liquidez

Entre 2015 e 2022, para combater o risco de deflação, o BCE injetou trilhões de euros na economia através de compras massivas de títulos. Esse dinheiro acabou depositado pelos bancos comerciais de volta no próprio BCE. Com a escalada da inflação, o banco foi forçado a subir drasticamente os juros. O resultado: agora, o BCE paga juros bilionários sobre essa liquidez que ele mesmo criou, gerando um rombo contábil e um problema político, especialmente em países como Alemanha e Holanda.

Remendo fiscal ou política monetária?

Aumentar a parcela de reservas não remuneradas — o equivalente europeu do depósito compulsório — economizaria ao Eurosistema cerca de 4 bilhões de euros por ano, segundo cálculos da Reuters. Na prática, é uma forma de taxar os bancos para cobrir o déficit operacional do regulador. A medida alivia a pressão sobre os balanços dos bancos centrais, mas transfere o custo para o setor financeiro, que vê sua rentabilidade pressionada.

O debate no BCE, previsto para os próximos meses, expõe as complexas e pouco elegantes saídas para o fim da era do dinheiro farto e barato. A decisão de Lagarde e seus pares não será sobre um ajuste contábil, mas sobre quem, no fim, paga a conta do ciclo de estímulo mais longo da história monetária recente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney