Uma competição inusitada, batizada de Longevity World Cup, premiou em janeiro seus primeiros vencedores: os indivíduos que mais conseguiram reverter seu relógio biológico. Segundo reportagem do Business Insider, os três primeiros colocados reduziram suas “idades biológicas” em 22.1, 20.6 e 20.1 anos, respectivamente, num período de aproximadamente um ano. O prêmio, de cerca de US$ 4 mil, foi pago em Bitcoin.

O evento, fundado pelo desenvolvedor Adam Ficsor, se baseia na métrica PhenoAge, uma ferramenta que estima a idade biológica a partir de marcadores sanguíneos comuns, como colesterol, glicemia e indicadores de inflamação e função renal. A premissa é simples: enquanto a idade cronológica é imutável, a biológica poderia ser um score a ser otimizado. A competição acende um debate central no ecossistema de saúde e tecnologia: estamos diante de um avanço real na extensão da vida saudável ou de uma gamificação sofisticada de exames laboratoriais?

O placar contra o tempo

O PhenoAge não é uma medida direta da velocidade do envelhecimento, mas sim uma estimativa estatística do risco de mortalidade. Daniel Belsky, professor de epidemiologia na Universidade Columbia, ouvido pela reportagem, descreve o método como uma “estimativa do seu risco de morrer baseada em exames de sangue”. Belsky, que não esteve envolvido na competição, adverte que oscilações bruscas nesses scores são difíceis de interpretar e que competições do tipo são um “convite para que as pessoas hackeiem o algoritmo”.

Os resultados dos vencedores são, no mínimo, impressionantes. O primeiro colocado, o cientista Michael Lustgarten, de 53 anos, alcançou uma idade biológica estimada de 30.9 anos. O terceiro, Wen Zhuang, de 20.6 anos, chegou a uma idade biológica de apenas 0.5 ano. Belsky pondera que isso não significa que Zhuang seja “biologicamente um bebê”, mas sim que seus marcadores sanguíneos atingiram níveis incomuns. Ainda assim, o epidemiologista reconhece a validade da ferramenta para monitorar melhorias gerais de saúde decorrentes de mudanças no estilo de vida.

O manual dos vencedores

Ao contrário do que se poderia esperar de uma vanguarda do biohacking, os métodos dos vencedores se concentram em fundamentos. Dietas com controle de carboidratos e priorização de gorduras saudáveis, rotinas de exercício, sono de qualidade e gestão do estresse formam a base das estratégias. O segundo colocado, Zdenek Sipek, de 46 anos, atribui seu resultado (idade biológica de 25.8) à disciplina e a práticas como o estudo do budismo e do taoísmo para promover a “paz de espírito”.

Onde a prática se torna mais extrema é na suplementação. Wen Zhuang, o terceiro colocado, consome mais de 75 suplementos diferentes, de vitaminas a extratos de plantas. Contudo, ele mesmo ressalta que o essencial está no sono, treino e dieta, não na “lista de pílulas”. Michael Lustgarten, o campeão, adota uma abordagem de cientista de dados para o próprio corpo: ele acumula mais de 70 exames de sangue desde 2015, correlacionando milhares de medições com sua dieta e rotina para identificar o que de fato move seus biomarcadores. Para ele, o ponto de partida não são suplementos caros, mas exames de sangue regulares e baratos para guiar as decisões.

No fim, a Longevity World Cup funciona menos como uma prova definitiva da reversão do envelhecimento e mais como um laboratório público de otimização da saúde. O principal insight talvez não esteja nas dezenas de suplementos ou em um protocolo específico, mas na mentalidade que une os vencedores: uma busca incessante e metrificada pela melhoria dos pilares da saúde. A questão que permanece em aberto é onde traçar a linha entre aprimoramento genuíno e a mera busca por um placar favorável no jogo da biometria.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider