O investimento anual na construção de centros de dados em escala global deve dobrar em relação a 2024, superando a marca de US$ 1 trilhão até 2027. A projeção, parte de um novo relatório da Allianz Commercial, reflete a demanda insaciável por capacidade computacional gerada pela inteligência artificial. O capital, ao que parece, não é o problema.

A análise da seguradora, repercutida pela Forbes Espanha, aponta para uma mudança fundamental no setor. Se antes a corrida era por capital e tecnologia de ponta, agora a competição se dá no mundo físico. O sucesso da próxima fase da infraestrutura digital dependerá de fatores tangíveis: acesso à energia, conexões à rede elétrica, agilidade na obtenção de licenças e disponibilidade de mão de obra qualificada.

Do ativo imobiliário à infraestrutura crítica

A inteligência artificial está transformando a natureza dos centros de dados. O que antes era visto como um ativo imobiliário especializado agora se consolida como infraestrutura crítica, nas palavras de Thomas Lillelund, CEO da Allianz Commercial. Essa mudança eleva a barra para a resiliência operacional. A oportunidade de investimento, segundo o relatório, vai muito além das salas de servidores, abrangendo geração e redes elétricas, sistemas de refrigeração e semicondutores.

Nesse novo cenário, a vantagem competitiva não é mais puramente financeira. Ela é determinada pela capacidade de garantir acesso a recursos físicos escassos. A construção de um data center moderno envolve não apenas capital intensivo, mas uma complexa cadeia de suprimentos e uma cuidadosa seleção de locais que leve em conta a estabilidade da matriz energética e os riscos climáticos. A resiliência, portanto, torna-se a métrica central para o sucesso.

A nova geografia do risco

Embora Estados Unidos e China devam concentrar cerca de 62% da nova capacidade instalada até 2030, a próxima onda de investimentos será cada vez mais global. O relatório destaca uma expansão acelerada em mercados como Espanha, Finlândia e Dinamarca, onde a disponibilidade de energia e condições regulatórias para licenciamento podem ser mais favoráveis. A Espanha, em particular, posiciona-se para se tornar um "hub digital do sul da Europa", com projeções de atrair quase € 67 bilhões em investimentos até o fim da década.

Contudo, essa expansão traz consigo uma nova matriz de riscos. A Allianz adverte que 79% da capacidade global de data centers está em zonas com alta exposição a catástrofes naturais, e 54% em áreas de estresse crônico por calor e seca. Não por acaso, incêndios são a principal causa de perdas severas no setor, seguidos por desastres naturais e falhas elétricas. O crescimento da infraestrutura digital está diretamente atrelado à capacidade de mitigar riscos físicos cada vez mais evidentes.

O boom na construção alimenta, por sua vez, o mercado de seguros para o setor, que deve mais que dobrar, para US$ 24 bilhões anuais até 2030. A demanda vai além da cobertura de danos materiais, exigindo soluções integradas para construção, interrupção de negócios e riscos cibernéticos. A nuvem, ao que tudo indica, depende cada vez mais de soluções firmemente plantadas no chão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España