A publicação literária Lit Hub divulgou um longo excerto de “We Never Called It Frisco”, romance de Jed Perl com lançamento previsto para 2026 pela Coffee House Press. A obra, narrada em primeira pessoa, é uma imersão na cena artística e intelectual de São Francisco, um ecossistema de poetas, pintores e escritores que navegam suas ambições e inseguranças à sombra da onipresente Nova York.

O texto, no entanto, transcende a crônica de costumes. Funciona como um diagnóstico preciso da psicologia cultural que define a Bay Area. A tese central, articulada pelo narrador, é que a identidade da cidade se forja na oposição. “Aqui em São Francisco, temos orgulho de ser a oposição”, afirma. É uma postura que, embora possa ser vista como esnobismo reverso, revela a essência de um lugar que se recusa a ser medido pela régua do establishment da Costa Leste.

A oposição como identidade

O livro de Perl captura uma tensão fundamental: a de uma cultura que se define tanto pelo que cria quanto pelo que rejeita. O narrador evoca com nostalgia a “Renascença de São Francisco”, com suas “revistas mimeografadas, galerias improvisadas, filmes experimentais”. É a celebração de uma vanguarda que floresce na margem, longe dos centros de poder editorial e artístico que, na narrativa, são sinônimos de Nova York. Essa geografia é, acima de tudo, ideológica. Estar na “costa errada” é uma escolha, uma declaração de princípios.

A complexidade dessa dinâmica é explorada através de seus personagens. Mike, o poeta de ascendência indiana, coleciona prêmios da Costa Leste, mas seu valor é medido por sua capacidade de permanecer “um de nós”. Já Marcia, a figura central e trágica da narrativa, personifica o conflito. Após um período de sucesso em Nova York, ela retorna a São Francisco, incapaz de se reconciliar plenamente com qualquer um dos mundos. Sua trajetória sugere que a ponte entre os dois polos é frágil, e que o sucesso medido pelo centro é visto com uma mistura de inveja e desdém pela periferia auto-imposta.

A vanguarda e seus demônios

O grupo retratado por Perl não é um bloco monolítico unido contra um rival externo. Pelo contrário, a narrativa expõe as fissuras e a acidez das relações internas. Marcia, a líder informal, é descrita como mandona e ferina, diminuindo o sucesso de seus pares e mantendo um controle social sobre o grupo. A cena é um microcosmo de rivalidades pessoais, ressentimentos e uma competitividade velada que corre sob a superfície da camaradagem boêmia. A cultura que se orgulha de sua autenticidade e improviso é, também, um campo minado de egos frágeis.

A cena final, na Ópera de São Francisco, é uma alegoria poderosa. Enquanto assistem a uma performance de Martha Graham, o verdadeiro drama se desenrola entre eles. Marcia desfere uma crítica brilhante e demolidora do espetáculo — “é xarope, mas é um xarope fabuloso” —, reafirmando sua proeza intelectual. Momentos depois, ela colapsa e morre. A ironia de a autora de um livro chamado “Uma Noite na Ópera” morrer na ópera é o arremate sombrio de uma cultura que, no retrato de Perl, parece tão criativa quanto autofágica.

Embora ambientado em uma era pré-tecnologia, o romance de Perl ecoa de forma surpreendente no presente. A psique de São Francisco, com seu complexo de inferioridade e superioridade, e sua necessidade de se posicionar como uma força disruptiva contra um status quo estabelecido, é a mesma narrativa que o Vale do Silício adotaria e amplificaria para uma escala global décadas mais tarde. O livro parece questionar o que se ganha e, principalmente, o que se perde quando a contracultura se torna, ela mesma, o centro do poder.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub