Eli e Kaitlyn Regalado, um casal do Colorado, estão no centro de um processo criminal que une dois mundos aparentemente distantes: a fé evangélica e o volátil mercado de criptomoedas. Eles são acusados de levantar mais de US$ 3 milhões de cerca de 500 investidores para a INDXcoin, um ativo digital que, segundo eles, foi uma criação por ordem divina. O projeto ruiu, os investidores perderam tudo, e o casal agora enfrenta múltiplas acusações de fraude, roubo e extorsão.

A extensa reportagem, produzida pela MIT Technology Review em parceria com a Type Investigations, detalha como a promessa de um milagre financeiro se transformou em um desastre. O caso da INDXcoin não é apenas mais uma história de fraude no universo cripto. É um exemplo clássico de “fraude por afinidade”, onde a confiança pré-existente dentro de um grupo — neste caso, a comunidade cristã — é o principal vetor para a manipulação financeira. A narrativa de uma missão divina serviu para desarmar o ceticismo e mascarar a completa falta de fundamento técnico e financeiro do projeto.

O Profeta do Blockchain

No centro da história está a figura de Eli Regalado, um homem com um passado complexo. Antes de se tornar um pregador online, Regalado teve problemas com a lei, incluindo uma condenação por roubo de carro. Profissionalmente, construiu uma carreira em vendas, onde foi descrito por um ex-colega como “o mais carismático dos fanfarrões”. Após uma crise pessoal e uma conversão religiosa, ele mergulhou no cristianismo carismático, um movimento que enfatiza uma relação pessoal e direta com Deus, incluindo profecias e revelações.

Foi nesse contexto que, em meio a dificuldades financeiras em 2021, os Regalados afirmam ter recebido a orientação divina para entrar no mercado de criptoativos. Sem qualquer experiência na área, eles começaram a promover um ativo chamado Sumcoin, antes de ouvirem um chamado para criar sua própria moeda. A INDXcoin nasceu de uma ignorância técnica assumida: o casal admitiu ter aprendido os conceitos básicos, como “o que é um blockchain”, pesquisando no YouTube e no ChatGPT. A falta de expertise, no entanto, era compensada por uma retórica de fé inabalável.

O Evangelho da Riqueza Digital

O público-alvo da INDXcoin, conforme descrito em seu próprio white paper, eram “crentes cristãos” e “entusiastas de cripto menos experientes”. A promessa era de “crescimento incrível com risco mínimo”. Para acelerar a captação, ofereciam comissões de 30% por indicação, um claro sinal de alerta em qualquer mercado. A narrativa religiosa era onipresente: em vídeos promocionais, Eli citava as escrituras e enquadrava o investimento como “uma reação em cadeia de milagres”. Para muitos, como um casal de aposentados que investiu US$ 70 mil de suas economias, o fato de ser um “veículo guiado por Deus” era a garantia contra as fraudes comuns no setor.

Contudo, os sinais de problema eram evidentes para qualquer um fora do círculo de fé. Advogados alertaram o casal de que a INDXcoin poderia ser classificada como um valor mobiliário (security), o que exigiria registro e transparência regulatória — regras que eles ignoraram. Uma auditoria de segurança do blockchain da moeda resultou em uma nota 0 de 10. Consultores financeiros apontaram que o projeto era “seriamente subcapitalizado”. Ainda assim, os Regalados seguiram em frente, gastando cerca de US$ 1,3 milhão do dinheiro dos investidores em despesas pessoais, incluindo um Range Rover, reformas de luxo e roupas de grife.

O colapso foi tão rápido quanto previsível. Ao lançar sua própria plataforma de negociação, a liquidez de pouco mais de US$ 100 mil evaporou em horas, diante de uma avalanche de ordens de venda. A promessa de riqueza se desfez, e o casal encerrou as operações. Hoje, eles mantêm a defesa de que apenas seguiram a vontade de Deus. O caso Regalado serve como uma dura lição sobre como a fé, quando misturada à promessa de dinheiro fácil em uma fronteira tecnológica pouco compreendida, pode se tornar uma ferramenta de devastação financeira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Technology Review