Todas as manhãs, há quase dois anos, setenta profissionais de saúde mental deixam suas tendas em Gaza. O cenário é de precariedade absoluta: insetos, ratos e a ameaça constante de mísseis que explodem nas proximidades. Ainda assim, eles caminham, por vezes durante duas horas, até os espaços improvisados entre escombros onde se reunirão com outros sobreviventes. A missão deles, como descreve James Gordon, fundador do Center for Mind-Body Medicine, é ensinar o básico da cura do trauma para quem já perdeu o inimaginável.
Em workshops de duas horas, eles reúnem grupos de 20 a 25 crianças e adultos. A primeira ferramenta é o silêncio e a respiração: exercícios lentos e profundos para tentar equilibrar um sistema nervoso preso em um ciclo incessante de alerta e fuga. Depois, com a ajuda de um celular tocando músicas rítmicas, o convite é para que todos se levantem, sacudam os corpos enrijecidos pelo medo e dancem ao som de melodias tradicionais. É a busca por um pequeno espaço de liberdade em meio ao confinamento físico e psicológico.
No fim da sessão, um pequeno milagre: papel e giz de cera, encontrados de alguma forma em meio à escassez, são distribuídos. As pessoas são encorajadas a desenhar sentimentos profundos demais para serem expressos em palavras. Este método, despido de qualquer aparato tecnológico, representa uma forma de inovação social em seu estado mais puro. Não há aplicativos, plataformas ou algoritmos. Há apenas a tecnologia humana da empatia, do movimento e da expressão artística como ferramenta de sobrevivência psicológica.
O trabalho desses profissionais locais é um contraponto poderoso à narrativa de que soluções para crises humanitárias dependem de intervenções complexas e externas. A resiliência, aqui, é construída de dentro para fora, com os recursos disponíveis e um profundo conhecimento do contexto cultural e emocional. Cada desenho, feito em silêncio sobre o chão de uma tenda, torna-se um arquivo do trauma, mas também um testamento da persistência. O que dizem essas cores e formas que as palavras não conseguem mais alcançar?
Com reportagem de Brazil Valley
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