A desvalorização de um carro elétrico no Brasil não segue a curva previsível de um modelo a combustão. Um estudo recente do Banco BV em parceria com a Fenauto, a federação das revendedoras de veículos, revela um mercado de duas velocidades: enquanto os seminovos com até dois anos de uso mantêm um valor surpreendentemente alto, os modelos com mais de três anos enfrentam uma depreciação acentuada.
A explicação para o paradoxo não está no hodômetro ou no desgaste físico, mas na velocidade da inovação. A tese do estudo é que a rápida evolução tecnológica — baterias com maior autonomia, recargas mais rápidas e a chegada de modelos zero-quilômetro mais baratos e eficientes — torna as gerações anteriores rapidamente obsoletas. O principal fator de desvalorização, portanto, é a defasagem tecnológica.
A obsolescência como fator-chave
Para os elétricos mais novos, com até 24 meses de uso, a lógica é de escassez. A demanda aquecida por eletrificados, somada a uma oferta ainda restrita de modelos novos, sustenta os preços no mercado de seminovos. Nesse segmento, um usado recente funciona quase como um substituto para um zero-quilômetro com fila de espera, o que justifica sua alta cotação.
O cenário se inverte drasticamente para veículos com três ou mais anos de estrada. Um modelo elétrico lançado há quatro anos compete hoje diretamente com carros novos que oferecem o dobro de autonomia por um preço menor. Essa concorrência, impulsionada pela entrada agressiva de novas marcas, força uma remarcação severa nos preços dos usados mais antigos para que permaneçam competitivos. A perda de valor é ditada mais pela evolução do portfólio da indústria do que pelo estado de conservação do carro.
O risco do pioneirismo
Essa dinâmica impõe um novo cálculo de risco para o consumidor e para o mercado de financiamento. Os primeiros a adotarem a tecnologia, que pagaram um prêmio pela novidade, agora arcam com a maior fatia da depreciação. O pioneirismo, antes um símbolo de status, torna-se um passivo no momento da revenda.
A chegada contínua de novas versões e fabricantes, especialmente da China, tende a acelerar ainda mais esse ciclo. A cada lançamento que redefine o piso de preço e o teto de autonomia, a pressão sobre o valor da frota circulante aumenta. Para o mercado, a questão que fica é como precificar um ativo cujo principal fator de depreciação é o próprio avanço da tecnologia que o define. O cálculo do custo total de propriedade de um elétrico tornou-se, subitamente, mais complexo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Canaltech





