O Kansong Art Museum, em Seul, oficializou o retorno de duas monumentais esculturas de leões da dinastia Qing para a China. A cerimônia, realizada no final de julho, contou com a presença de diretores de museus e autoridades governamentais dos dois países, incluindo o embaixador chinês na Coreia do Sul, Dai Bing.

As peças, que adornavam a entrada do museu coreano por quase um século, foram adquiridas em um leilão no Japão em 1933 pelo fundador da instituição. A devolução, negociada desde o início do ano, é mais do que uma simples repatriação de arte; é um calculado movimento de diplomacia cultural entre duas potências regionais com uma história complexa e interligada.

A ironia histórica e o gesto político

A história do próprio Kansong Art Museum adiciona uma camada de ironia ao episódio. A instituição foi fundada em 1938 com o propósito explícito de preservar artefatos culturais coreanos como uma forma de resistência ao imperialismo japonês. O fato de que seu acervo abrigava peças chinesas de grande valor, adquiridas justamente no Japão, ilustra a complexa teia de trocas e deslocamentos culturais na Ásia do século XX.

Para a China, que tem uma política assertiva de recuperação de seu patrimônio cultural espalhado pelo mundo, o gesto é uma vitória simbólica. Para a Coreia do Sul, é uma manobra de baixo custo e alto impacto para fortalecer laços com seu principal parceiro comercial. Nas palavras do embaixador chinês, citadas pela agência Yonhap, a expectativa é que a cooperação em torno do "patrimônio cultural deslocado" aprofunde os "sentimentos de amizade" entre os povos.

O futuro da repatriação na Ásia

Enquanto museus ocidentais enfrentam crescente pressão para devolver artefatos a seus países de origem, este caso representa uma dinâmica distinta: uma repatriação intra-asiática. O movimento pode servir de precedente para outras negociações na região, onde as reivindicações históricas são frequentemente trianguladas pela sombra do antigo império japonês.

De forma simbólica, os leões chineses serão substituídos na entrada do museu por um par de tigres de pedra, um animal de forte apelo no imaginário nacional coreano. A troca sugere uma reafirmação da identidade local ao mesmo tempo em que se estende um ramo de oliveira diplomático a Pequim.

A questão que permanece é se a devolução dos leões será o prelúdio para uma cooperação mais estrutural em um cenário geopolítico volátil, ou se ficará registrada como um bem-sucedido, porém isolado, ato de diplomacia visual.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews