A eleição presidencial brasileira de outubro pode ser o teste mais severo para a doutrina de política externa de Donald Trump na América Latina. A avaliação é de Brian Winter, editor-chefe da Americas Quarterly, em uma análise que define o Brasil como a grande exceção a uma ofensiva que tem consolidado governos de direita na região.

Segundo reportagem da Bloomberg Línea, a tese central é que a estratégia de Trump, apelidada por Washington de “Doutrina Donroe”, falha onde mais importa. Enquanto a combinação de pautas de segurança e pressão econômica ressoou em outros países, no Brasil, a aplicação dessa cartilha teve efeito reverso, expondo os limites do poder de influência americano mesmo sob uma administração assertiva.

Uma doutrina para a região

A chamada “Doutrina Donroe” — um trocadilho com a histórica Doutrina Monroe — se apoia menos na figura de Trump, que é impopular em boa parte da América Latina, e mais em um alinhamento estratégico. A agenda de segurança do ex-presidente americano conecta-se diretamente com a principal preocupação do eleitorado latino-americano: o crime.

Essa sintonia, segundo Winter, explica a ascensão de uma onda conservadora na região, com governos que se alinharam a Washington. A estratégia não é apenas retórica; ela se manifesta em ações concretas, como a imposição de tarifas comerciais para extrair concessões políticas, criando um modelo de pressão que, até então, parecia eficaz.

O fator Brasil

O Brasil, contudo, provou ser um campo de provas adverso para essa política. O maior revés, aponta o analista, ocorreu em 2025, quando Trump impôs tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. A medida era uma tentativa de pressionar pelo arquivamento de acusações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O resultado foi o oposto do esperado. A intervenção acabou por fortalecer a figura de Lula, enfraqueceu politicamente Bolsonaro e, ironicamente, contrariou interesses comerciais dos próprios Estados Unidos. O episódio demonstrou que a escala econômica e a complexidade política do Brasil não se dobram facilmente a manuais de política externa, por mais assertivos que sejam.

À medida que a eleição de outubro se aproxima, o que está em jogo não é apenas o futuro político doméstico. O pleito servirá como um termômetro para a autonomia brasileira no cenário global e para os limites da influência de uma superpotência em seu chamado “quintal”.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea