A nova geração de startups de inteligência artificial está forjando uma cultura de trabalho ininterrupta, na qual os fundadores se tornam reféns de seus próprios “agentes” de software. Esses sistemas, projetados para operar 24 horas por dia, sete dias por semana, exigem supervisão humana constante, eliminando qualquer fronteira entre o expediente e a vida pessoal.

O que se desenhava como o ápice da automação está, na prática, gerando uma nova forma de dependência. A promessa de produtividade exponencial vem com um custo elevado: a saúde mental e o bem-estar dos próprios criadores, presos a um ciclo de validação incessante para não “bloquear” o progresso de suas máquinas, conforme detalhado em reportagem do Wall Street Journal e repercutido pelo site Xataka.

A servidão da validação

O cerne do problema é que os agentes de IA não são inteiramente autônomos. Eles executam tarefas complexas, mas frequentemente pausam em pontos de controle que exigem aprovação humana para prosseguir. Para um fundador, ignorar uma notificação significa paralisar a operação. Aditya Sharma, cofundador da startup Keel, relatou dias em que só consegue dormir às 6 da manhã, após atender às demandas de seus agentes. “O custo de os agentes ficarem bloqueados por oito horas é excessivamente alto”, afirmou.

Essa dinâmica cria um estado de alerta permanente. Não se trata mais de cumprir uma jornada, mas de estar perpetuamente disponível. Ajay Kalia, fundador da Alt, trabalha até 15 horas diárias e continua a aprovar tarefas pelo seu Apple Watch mesmo quando está fora do escritório, questionando a sustentabilidade do hábito. A tecnologia que deveria libertar, acaba por aprisionar.

O FOMO algorítmico

A pressão não é apenas operacional, mas também psicológica e competitiva. Fundadores descrevem a experiência em termos de dependência. “É como uma droga”, disse Peter Pezaris, da Proxon, que estima que sua empresa opera 30 vezes mais rápido com os agentes. Para ele, o ritmo de trabalho vai das 7h30 às 2h da madrugada, movido pela sensação de que “cada minuto que não trabalho, perco o equivalente a uma semana de trabalho”.

Este é o novo FOMO (fear of missing out) do Vale do Silício: o medo de que, enquanto você descansa, o agente de um concorrente — e seu fundador igualmente insone — esteja avançando. A antiga cultura de escritórios com massagistas e academias deu lugar a uma norma de ultraprodutividade, onde semanas de 72 horas de trabalho se tornam o padrão para quem está na fronteira da IA.

O paradoxo é que todos no ecossistema parecem reconhecer a insustentabilidade do modelo. Como admite Kalia sobre sua rede de contatos, há um consenso silencioso de que o ritmo é insano. Mas, ao mesmo tempo, a pergunta que paira no ar é: por que parar agora e ser o primeiro a ficar para trás?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka