Em levantamento publicado em maio de 2026, a Forbes mapeou e avaliou as maiores empresas familiares de capital fechado dos Estados Unidos. O critério metodológico da publicação exigiu a exclusão de fundadores de primeira geração, focando exclusivamente em negócios que já atravessaram processos sucessórios, avaliando fatores como propriedade e assentos no conselho. O resultado expõe uma economia paralela e avessa aos holofotes: três dessas corporações ultrapassam a marca de US$ 100 bilhões em valuation estimado. Segundo a análise, essas cifras as tornam mais valiosas do que quase todos os unicórnios de tecnologia mais incensados do mercado, superando nomes como SpaceX, OpenAI e Anthropic. Espalhadas por 16 estados americanos, de Delaware a Idaho, essas 25 companhias operam a infraestrutura básica do consumo, controlando marcas de locação de veículos como a Enterprise Mobility, ferramentas como a Harbor Freight e materiais de construção como a Quikrete.

O peso do capital multigeracional

No topo do ranking figura a Koch Inc. (antiga Koch Industries), com um valuation estimado em US$ 185 bilhões. Sediado em Wichita, no Kansas, o conglomerado registrou US$ 125 bilhões em receitas e mantém 84% de seu controle nas mãos das famílias do atual co-CEO e chairman Charles Koch, de 90 anos, e de Julia Koch, viúva de seu irmão David, falecido em 2019. A companhia ilustra a trajetória clássica de expansão industrial: fundada em 1940 por Fred Koch com foco em um novo método de refino de petróleo, a operação foi assumida por Charles em 1967 e diversificou-se para produtos químicos, papel e celulose, dutos e software, fabricando também itens de consumo como os copos Dixie e os papéis Brawny e Angel Soft.

A Mars ocupa a segunda posição, avaliada em US$ 121 bilhões e mantendo 100% de seu controle com a família fundadora. Ao longo de 115 anos, desde que Frank Mars começou a produzir doces em sua cozinha em 1911, a empresa expandiu seu portfólio muito além dos chocolates M&M's e Milky Way. A corporação avançou sobre o mercado de cuidados para pets, com a marca Whiskas, e alimentos, com a Ben's Original. No final do último ano, consolidou ainda mais sua posição ao adquirir a Kellanova — operação cindida da Kellogg — em um acordo avaliado em US$ 36 bilhões, incorporando marcas como Cheez-It, Pop-Tarts e RXBAR.

Estruturas de propriedade e adaptação institucional

A análise revela modelos distintos de governança e divisão societária. A Fidelity Investments, sediada em Boston, adota um modelo híbrido: a família Johnson detém 49% da companhia, enquanto os funcionários controlam os 51% restantes. Fundada em 1946 por Edward C. Johnson II, a empresa é hoje comandada por Abigail Johnson, a terceira geração da família no poder. Com US$ 17,9 trilhões em ativos sob administração, a instituição demonstrou capacidade de adaptação contínua, sendo pioneira na venda de fundos mútuos por telefone em 1974 e uma das primeiras instituições financeiras tradicionais a lançar uma plataforma de criptomoedas em 2018.

Dinâmica semelhante de propriedade compartilhada é vista na Publix, rede de supermercados avaliada em US$ 63,1 bilhões, onde a família Jenkins mantém 20% de participação e os funcionários detêm o restante. Fundada em 1940 por George Jenkins em Winter Haven, na Flórida, a rede hoje opera mais de 1.400 lojas em oito estados do sul americano. Já a Cargill, sediada em Minnesota e a mais antiga do topo da lista, ilustra a pulverização do controle familiar: fundada a partir de um armazém de grãos por W.W. Cargill em 1865, a empresa diversificou-se para negociação de commodities, gestão de risco financeiro e transporte. Hoje, mais de cem membros da família detêm 88% da companhia, que lidera em receita com US$ 154 bilhões. Para contexto, a BrazilValley aponta que a resiliência dessas dinastias corporativas contrasta com a volatilidade dos mercados públicos, permitindo uma alocação de capital com horizontes de longo prazo, blindada das pressões trimestrais de Wall Street.

A magnitude dessas operações familiares privadas redefine a percepção sobre onde reside o verdadeiro poder econômico americano. Enquanto o capital de risco e as aberturas de capital dominam as narrativas de mercado, a fundação material da economia — da agricultura e infraestrutura ao varejo e serviços financeiros — permanece sob o controle de estruturas dinásticas. A capacidade de atravessar gerações, diversificar operações e reter o controle acionário prova que a ausência de liquidez pública não é um limite para a escala, mas a própria base de sua perenidade.

Fonte · Brazil Valley | Business