A pouco mais de dois anos da próxima eleição presidencial, o mercado financeiro já começa a ajustar suas posições. O Citi promoveu uma mudança relevante em sua carteira de ações brasileiras, citando um cenário eleitoral para 2026 que se tornou mais competitivo. A nova estratégia favorece, ainda que de forma moderada, papéis mais sensíveis à queda dos juros de longo prazo.

A tese do banco, detalhada em relatório, é que o mercado passou a atribuir maior probabilidade a uma mudança política em 2027. Uma eventual vitória da oposição poderia destravar uma compressão nos prêmios de risco e, consequentemente, nas taxas de juros futuras. Para navegar essa incerteza, a instituição adota uma abordagem de “barbell portfolio”, uma alocação que busca equilibrar extremos: ativos de baixo risco com outros de altíssimo risco.

Uma carteira para dois Brasis

A estratégia de duas pontas do Citi busca se preparar para resultados distintos. Em um cenário de reeleição do presidente Lula, a preferência recai sobre empresas consideradas “all weather”, capazes de performar em diferentes ambientes macroeconômicos, além daquelas expostas a programas governamentais, como as construtoras do Minha Casa Minha Vida. Já em um cenário de vitória da oposição, o foco se volta para ações de maior duration, cujo valor presente é mais impactado por uma redução nas taxas de desconto futuras.

Essa visão se traduziu em mudanças concretas na carteira recomendada. Saíram nomes como Itaú Unibanco, Eneva e Cury, dando lugar a XP, BTG Pactual, Hypera, Ecorodovias e Sabesp. A nova composição mostra uma aposta em nomes ligados à atividade doméstica e à queda dos juros, como Multiplan e Vivara — esta última com seu peso na carteira dobrado para 10%, um sinal de forte convicção. Ao mesmo tempo, o banco mantém exposição a commodities com Vale, Petrobras e PRIO, que funcionam como um hedge menos dependente do ciclo político local.

O antídoto brasileiro à febre da IA

Além da dinâmica eleitoral, o Citi aponta um outro vetor de atratividade para a bolsa brasileira: seu potencial como um “anti-AI trade”. A análise sugere que, após a forte valorização das ações de tecnologia ligadas à inteligência artificial, muitos portfólios globais ficaram excessivamente concentrados no setor. Nesse contexto, o Brasil surge como uma alternativa de diversificação.

A composição do Ibovespa, com forte peso em setores tradicionais como commodities e financeiro, oferece um contrapeso natural à exposição tecnológica. Para um gestor global buscando reduzir o risco de uma correção no setor de IA sem sair da renda variável, alocar em um mercado com as características do brasileiro pode ser um hedge estrutural interessante. A tese posiciona o país não apenas como um jogo tático de risco político, mas como uma peça estratégica na alocação global.

O movimento do Citi é menos uma aposta cravada em um resultado eleitoral e mais um reflexo da gestão de risco em um ambiente de incerteza crescente. A estratégia mostra como a política doméstica já está sendo precificada nos modelos de alocação, transformando projeções macroeconômicas em decisões de portfólio. É o mercado se preparando para qualquer que seja o Brasil de 2027.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney