A escritora francesa Christelle Dabos, conhecida pela série de fantasia “A Passa-Espelhos”, publicou um ensaio onde disseca a premissa de seu novo romance, “We”. O texto, veiculado pelo portal literário Lit Hub, parte de uma experiência pessoal de desconforto com a apatia cotidiana para construir um experimento mental ambicioso: e se o altruísmo não fosse uma virtude, mas uma condição biológica?

O questionamento que guia a obra — “E se todo ser humano nascesse com uma necessidade irresistível de fazer o bem?” — serve como ponto de partida para uma análise que transcende o making-of literário. A reflexão de Dabos é um mergulho na própria natureza da empatia, na tensão entre o individualismo do “eu” e a necessidade de pertencimento a um “nós”, usando a ficção como um laboratório para testar os limites da moralidade.

O instinto e a máquina moral

No universo de “We”, a sociedade é organizada por um sistema de “Instintos”. Trata-se de uma força biológica que compele os indivíduos a agir: os “alimentadores” precisam saciar a fome alheia, os “protetores” são forçados a defender os vulneráveis. A inspiração, admite a autora, vem de obras como a série “Sense8”, das irmãs Wachowski, com sua consciência coletiva, e da “caixa de empatia” imaginada por Philip K. Dick em “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, o livro que deu origem a “Blade Runner”.

A questão central que a autora propõe é corrosiva: “Podemos ainda falar em Bem se não há escolha?”. A utopia de uma sociedade programada para a ajuda mútua revela fissuras complexas. Os personagens de Dabos, mesmo agindo para o bem comum, são movidos por ambiguidades. Um herói que salva vidas pode fazê-lo para se isolar dos outros; uma confidente pode ouvir os problemas alheios apenas para preencher o próprio vazio. A arquitetura social baseada no instinto se torna, assim, um palco para questionar se a virtude reside no ato ou na intenção.

Do salvador à empatia real

A construção desse mundo ficcional dialoga diretamente com a jornada pessoal da escritora. Dabos relata com ironia sua fase juvenil de “complexo de salvador”, quando fundou uma ordem de cavalaria no MSN Messenger para impor o bem ao seu redor. A autora usa essa autocrítica para diferenciar o altruísmo genuíno da performance egoica, citando o mangá “Death Note” como um exemplo clássico do vilão que justifica atrocidades em nome de um bem maior, mas que, no fundo, apenas alimenta o próprio ego.

Para Dabos, a verdadeira empatia exige uma renúncia: “deixar ir o ‘eu’”. É preciso abandonar a perspectiva única para, de fato, encontrar o outro. A ficção, nesse contexto, funciona como o principal dispositivo para essa transcendência. Ao nos perdermos em um livro ou filme, argumenta ela, não estamos apenas escapando da realidade. Estamos vivenciando a “caixa de empatia” de Philip K. Dick, suspendendo nossa pequena história individual para dar espaço à de outra pessoa, sentindo e sofrendo com os personagens. É um ato que, ao final, nos devolve a nós mesmos com a sensação de solidão um pouco diminuída.

Este anseio por conexão, por preencher um vazio existencial, é o que, segundo Dabos, define a condição humana. A literatura não seria uma fuga, mas um encontro íntimo e necessário. É o momento em que o relativo — a experiência de um personagem — se torna absoluto para o leitor, permitindo vislumbrar o “Nós” que habita para além do “Eu”.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub