Yolanda Díaz, a influente vice-presidente e ministra do Trabalho da Espanha, formalizou sua candidatura para a direção-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A disputa a coloca contra o atual diretor, o togolês Gilbert F. Houngbo, que busca a reeleição. A votação está marcada para novembro, com o novo mandato iniciando em outubro de 2027.
Mais do que uma formalidade diplomática, a candidatura de Díaz chega com um manifesto de reforma. Segundo reportagem da Forbes España, que teve acesso ao seu programa estratégico, a ministra espanhola não mede palavras: a OIT, uma das mais antigas agências multilaterais, estaria em uma encruzilhada, enfrentando um "risco existencial" e presa a uma "gestão do declínio". Sua proposta central para reverter esse quadro é a criação de uma ambiciosa 'Carta Global de Direitos Laborais'.
Um diagnóstico para o declínio
O argumento de Díaz é que a crise da OIT é mais profunda do que um simples buraco no caixa, causado pelo atraso de contribuições de alguns países membros. O problema, segundo sua visão, é estrutural. Ela aponta para uma "fragmentação da capacidade técnica" da organização em comparação com outras potências multilaterais, como o Banco Mundial e a OCDE, que hoje parecem ditar com mais força a agenda econômica global.
A leitura é que, sem uma renovação de propósito, a OIT corre o risco de se tornar uma relíquia. Fundada em 1919 com uma estrutura tripartite única — reunindo governos, empregadores e sindicatos —, a agência foi um pilar da justiça social no século XX. A questão que a candidatura de Díaz coloca na mesa é se essa mesma estrutura consegue responder aos desafios do século XXI: a digitalização, a inteligência artificial, a transição climática e a precarização de novas formas de trabalho.
A Carta e a batalha pela relevância
A 'Carta Global de Direitos Laborais' é a peça central da sua estratégia para devolver o protagonismo à OIT. A ideia é criar uma nova norma internacional unificada que sirva como um "piso universal de direitos", sistematizando princípios históricos da organização e incorporando as novas realidades do trabalho. Na prática, seria uma tentativa de estabelecer um referencial para governar uma economia globalizada que, em muitos aspectos, opera à margem das convenções trabalhistas tradicionais.
Para financiar essa e outras iniciativas, Díaz propõe uma busca pragmática por contribuições voluntárias de doadores, mas com um cuidado: os recursos devem ser plurianuais e não condicionados, evitando que a agenda da OIT seja fatiada pelos interesses de quem paga a conta. O plano também menciona ajustes financeiros internos, mas promete fazê-los em consulta com os sindicatos da casa, um aceno à sua própria trajetória política, construída sobre dezenas de acordos de diálogo social na Espanha.
Díaz aposta em sua experiência como ministra, período de expansão do emprego de qualidade na Espanha, como sua principal credencial. Ao propor ser a primeira mulher e a primeira pessoa da Espanha a liderar a OIT, ela enquadra a eleição como uma escolha entre a continuidade e uma reforma profunda. O desafio será convencer os 187 estados-membros, além dos blocos de empregadores e trabalhadores, de que sua visão não é apenas um projeto europeu, mas um caminho viável para revitalizar o ideal de justiça social em escala global.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





