O governo espanhol está reforçando sua aposta estratégica no mar, mas o foco não está apenas na pesca. O Ministério da Agricultura, Pesca e Alimentação anunciou a incorporação de 13 novas entidades à Rede Espanhola de Espaços de Conhecimento para a Economia Azul (Reecea), elevando o total de membros para 33, um ano após sua criação. A notícia foi reportada pela Forbes España.

O movimento, à primeira vista burocrático, sinaliza uma tese mais profunda: a construção deliberada de um cluster de inovação formalmente orquestrado pelo Estado. A Reecea não é um mero fórum, mas um grupo de trabalho permanente e consultivo que busca conectar de forma estruturada as pontas que raramente conversam de modo fluido: administração pública, setor produtivo e centros de conhecimento.

Da rede de pesca à rede de conhecimento

A iniciativa espanhola é um reconhecimento de que a “economia azul” transcende o extrativismo. O conceito abrange desde a aquicultura sustentável e biotecnologia marinha até a digitalização de portos e a economia circular aplicada a resíduos do oceano. A expansão da rede busca justamente adicionar perfis complementares, incluindo pesquisa científica, inovação aplicada e cooperação territorial, para atacar essas novas fronteiras.

O racional é econômico. Segundo dados da Comissão Europeia citados na reportagem, a economia azul já representa um valor adicionado bruto de mais de €36 bilhões e emprega quase um milhão de pessoas na Espanha. Organizar esse setor é, portanto, uma questão de competitividade. A Reecea funciona como uma camada de governança para facilitar a troca de conhecimento, identificar oportunidades de financiamento e difundir boas práticas. É a tentativa de transformar potencial em produto, e pesquisa acadêmica em valor de mercado.

O modelo espanhol oferece um contraponto a ecossistemas que emergem de forma mais orgânica. Ao criar um framework estável de colaboração em escala nacional, o governo atua como um articulador central, diminuindo atritos e acelerando sinergias que o mercado, sozinho, poderia levar anos para construir. O desafio, claro, será traduzir a estrutura em resultados tangíveis, da publicação de papers à criação de novas empresas e patentes.

Para um país como o Brasil, dono de uma costa de dimensões continentais apelidada de “Amazônia Azul”, a lição do projeto espanhol não é apenas sobre a importância do mar. É sobre o como. A criação de um polo de inovação exige mais do que capital e talento; demanda um desenho institucional que promova a colaboração sistemática. A Espanha oferece um blueprint para essa arquitetura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España