As farmácias brasileiras estão em plena transformação. Pontos antes focados na venda de remédios e produtos de higiene agora instalam equipamentos de tecnologia de beleza, ou 'beauty tech', para diagnosticar a pele de clientes e recomendar tratamentos. Grandes redes como Nissei, RD Saúde e Discover, do Grupo DI, testam formatos em bairros de alta renda de São Paulo, usando scanners faciais e máscaras de LED como isca para um consumidor mais abastado.
O movimento é uma resposta direta a um problema estrutural: a compressão das margens de lucro na venda de medicamentos. A aposta na beleza de alta tecnologia não é apenas uma expansão de portfólio, mas um pivô estratégico em busca de rentabilidade. A análise aqui é que a farmácia tradicional, um negócio de volume e baixa margem, busca se reinventar como um destino de experiência e alto valor agregado, seguindo uma tendência global vista em redes como a Boots, no Reino Unido, e a CVS, nos Estados Unidos, segundo reportagem da Bloomberg Línea.
A busca pela margem perdida
A matemática por trás da mudança é clara. Enquanto a margem bruta de uma farmácia como a da RD Saúde gira em torno de 27%, a categoria de beleza premium pode adicionar de cinco a dez pontos percentuais a esse número. Para capturar esse valor, as estratégias variam. A Nissei, em sua loja nos Jardins, oferece o diagnóstico de pele como um brinde para compras acima de R$ 150, atrelando o serviço diretamente ao aumento do tíquete médio. Já a Discover, bandeira do Grupo DI, aposta na venda direta de produtos de alto valor, como uma máscara de LED de quase R$ 2.900.
Essa diversidade de abordagens mostra que o setor ainda está em fase de experimentação. Não há um modelo único, mas uma corrida para entender como monetizar a atenção do consumidor premium. O uso de equipamentos de fornecedores asiáticos, como as marcas chinesas AISIA e AISPA, também sinaliza uma nova cadeia de suprimentos se formando para atender a essa demanda. O scanner facial, antes restrito a clínicas dermatológicas, virou a nova porta de entrada para o consumo de luxo no corredor da farmácia.
O balcão vira consultório (e coletor de dados)
Essa transformação vai além da prateleira. O papel da farmácia e de seus funcionários está sendo redefinido. Com a ajuda da tecnologia, o atendente se torna um “consultor de beleza” que interpreta um diagnóstico e prescreve uma rotina de skincare. A nova demanda é impulsionada, em parte, por efeitos colaterais estéticos de tratamentos para emagrecimento, como os análogos de GLP-1, que criaram um novo público para cuidados com a firmeza da pele. A farmácia quer ser a primeira a oferecer a solução.
O que muitas vezes passa despercebido, contudo, é a contrapartida do serviço. Para realizar o diagnóstico, o scanner coleta nome, idade, telefone e uma imagem facial — dados considerados sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Cada leitura cria um elo digital entre a marca e o consumidor, transformando a experiência em uma poderosa ferramenta de marketing direto. A questão é se o consentimento para esse uso, exigido por lei, está sendo obtido de forma clara no balcão.
A farmácia se encontra numa encruzilhada, equilibrando sua identidade histórica ligada à saúde com uma nova ambição no varejo de prestígio. O scanner de pele é o símbolo dessa transição, um dispositivo que promete precisão científica para vender produtos de beleza. Resta saber se os consumidores abraçarão esse novo papel e se as redes conseguirão gerenciar as complexidades operacionais e regulatórias que ele acarreta.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





