A dívida total dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões pela primeira vez neste mês, mas o número em si é menos importante que o consenso que ele catalisou em Wall Street. Em análises independentes, dois dos economistas mais respeitados do mercado — David Kelly, do J.P. Morgan Asset Management, e Torsten Slok, da Apollo — chegaram à mesma conclusão: como Washington não parece disposto a consertar o déficit, o mercado de títulos o fará no seu lugar.
A tese ganhou contornos dramáticos com um artigo de opinião do investidor bilionário Stanley Druckenmiller no Wall Street Journal. Segundo ele, o rendimento dos títulos de longo prazo do Tesouro é “o único disciplinador fiscal que resta aos EUA”. A leitura é que, esgotada a paciência com a inação política, o mercado financeiro começou a impor seus próprios termos, elevando o custo do endividamento para forçar um ajuste que os políticos evitam.
A anatomia de uma dívida trilionária
Para entender a origem do problema, a análise de David Kelly é precisa. Ele ignora o número principal de US$ 40 trilhões — que inclui cerca de US$ 7,8 trilhões que o governo deve a si mesmo — e foca na dívida em poder do público, projetada para atingir US$ 32,3 trilhões, ou 100,5% do PIB, ao final do ano fiscal. Esse mesmo indicador era de apenas 34,7% em 2000, quando o governo federal registrava superávit.
Segundo reportagem da Fortune, que compilou as análises, Kelly atribui a reversão a quatro fatores principais desde então: cortes de impostos que reduziram a arrecadação em US$ 11,1 trilhões; guerras no Iraque e Afeganistão que custaram US$ 3,9 trilhões; o envelhecimento da população, que elevou os gastos com seguridade social e saúde em US$ 12,5 trilhões; e gastos de resposta a crises (2008 e pandemia) que somaram US$ 5,2 trilhões. Em resumo, os EUA votaram por menos impostos e mais despesas, e a conta acumulada, sem juros, explica a explosão da dívida.
O mercado como único disciplinador
Se a análise de Kelly explica o passado, as de Slok e Druckenmiller apontam para o futuro. O ponto central é que os juros dos títulos americanos não estão subindo por medo da inflação, mas sim pelo “crescente temor sobre o volume de dívida a ser emitida”, como argumenta Kelly. O mercado simplesmente questiona a capacidade de absorver tantos papéis sem um prêmio maior. Druckenmiller é mais direto, chamando um juro de 5,5% na ponta longa não de “crise”, mas de “fatura”.
A crítica de Druckenmiller é também um ataque direto à decisão do Tesouro de dobrar seu programa de recompra de títulos logo após o juro de 30 anos atingir sua máxima em duas décadas. Para o investidor, isso não foi uma operação de liquidez, mas uma tentativa de manipular preços. A questão ganha ares de “drama shakespeariano”, pois o secretário do Tesouro que autorizou a medida, Scott Bessent, é um antigo pupilo de Druckenmiller. O mentor que ensinou a apostar contra governos agora usa a mesma lógica contra a política de seu protegido.
O pano de fundo é uma mudança estrutural: os compradores marginais da dívida americana não são mais os bancos centrais estrangeiros, mas fundos de hedge como o que o próprio Druckenmiller fundou. A ironia é que a indústria que ele ajudou a criar para desafiar governos agora financia o governo que ele publicamente questiona. A mensagem é clara: se Washington não colocar a casa em ordem, o mercado o fará — e de forma bem menos sutil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





