A agenda prioritária do governo Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso enfrenta um obstáculo com nome e sobrenome: Davi Alcolumbre. Propostas de alto impacto, como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, estão paralisadas no Senado, e o Palácio do Planalto já trabalha com a possibilidade de que a votação ocorra apenas após as eleições municipais de outubro.

Segundo reportagem do InfoMoney, a paralisia tem duas causas principais: o esvaziamento natural do Legislativo em período eleitoral e, mais criticamente, a relação deteriorada entre Lula e o presidente do Senado. A leitura no ambiente político é que não se trata de um mero atraso regimental, mas de um movimento de força que coloca em xeque a capacidade de articulação do Executivo e o futuro de reformas consideradas vitrines para a campanha de reeleição do presidente.

O Custo do Silêncio

O epicentro do impasse é o rompimento entre as duas principais figuras da República. Fontes do Planalto atribuem o distanciamento à rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) no final do ano passado, uma derrota que o governo credita à articulação de Alcolumbre. Desde então, o diálogo direto cessou, e o presidente do Senado sinaliza que pautas de interesse do governo só andarão após uma conversa com o chefe do Executivo — um encontro que não tem data para ocorrer.

A PEC da jornada de trabalho, aprovada na Câmara em maio, é a vítima mais visível. Alcolumbre sequer despachou a matéria para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), primeiro passo para sua tramitação. Mas a lista de projetos na geladeira é maior e inclui a PEC da Segurança Pública e o projeto que regula a exploração de minerais críticos, ambos já aprovados pelos deputados e considerados estratégicos pelo Planalto.

Cálculo Eleitoral e Risco Político

Dentro do governo, o cenário de adiamento divide opiniões. Uma ala pragmática avalia que a inércia do Congresso pode ser convertida em capital político, reforçando o discurso de que o Legislativo é um “inimigo do povo” que impede avanços sociais. Seria uma forma de terceirizar a culpa por promessas não entregues e mobilizar a base eleitoral.

Outra corrente, no entanto, vê um risco significativo na demora. A avaliação é que, passada a pressão das eleições, o lobby empresarial terá mais força para desidratar os textos, por exemplo, ampliando o prazo de transição para a nova jornada de trabalho. A essa preocupação soma-se um cronômetro que não para: a medida provisória que extinguiu a cobrança de 20% sobre compras internacionais de baixo valor, a chamada “taxa das blusinhas”, perde a validade em setembro. Deixar a MP caducar seria uma derrota política e impopular para Lula às vésperas do pleito.

A disputa, portanto, transcende a agenda legislativa. O que está em jogo é uma medição de forças entre o Planalto e o comando do Senado, com o calendário eleitoral como pano de fundo. A capacidade do governo de destravar suas pautas definirá não apenas o legado econômico e social do período, mas também a narrativa política que dominará o debate público nos próximos meses.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney