A conta da corrida pela inteligência artificial começou a chegar ao consumidor. O preço de módulos de memória RAM, tanto DDR4 quanto DDR5, disparou, pressionando os custos de computadores, smartphones e consoles. A razão é um movimento estratégico dos três maiores fabricantes globais — Samsung, SK hynix e Micron —, que juntos controlam cerca de 90% do mercado de DRAM. Eles redirecionaram boa parte de sua produção para a memória de alto desempenho (HBM), componente essencial para os aceleradores de IA da Nvidia e outras gigantes, deixando o varejo desabastecido. O resultado é palpável: a Apple, por exemplo, já aumentou em 20% os preços de alguns modelos de MacBooks e iPads, citando diretamente o custo da memória.

Nesse vácuo de oferta, o mercado volta seus olhos para uma solução improvável até pouco tempo atrás: a China. Segundo reportagem do site espanhol Xataka, dois fabricantes chineses, a ChangXin Memory Technologies (CXMT) e a Yangtze Memory Technologies (YMTC), emergiram como a única variável capaz de trazer algum alívio. Antes coadjuvantes, essas empresas agora representam a principal aposta para estabilizar um mercado em desequilíbrio, capitalizando uma oportunidade criada pela nova prioridade da indústria de semicondutores.

A ascensão chinesa

A escalada das empresas chinesas é notável. A CXMT, focada em DRAM, viu seu lucro líquido crescer mais de 1.600% em um único trimestre e já detém uma fatia de 7,7% do mercado global, segundo a consultoria Omdia, posicionando-se como a quarta maior do mundo. Um contrato de quase US$ 2,8 bilhões com a Tencent para fornecer memória para servidores ilustra sua crescente relevância. No campo dos chips de armazenamento NAND, a YMTC expandiu sua participação de 8% para 13% em um ano e planeja uma nova fábrica em Wuhan para 2026, mirando o posto de terceira maior fabricante global. Em um movimento ousado, a YMTC também está entrando no mercado de DRAM, diversificando sua atuação.

O freio da realidade

No entanto, a expectativa de uma solução rápida e barata precisa ser moderada. A capacidade adicional dos fabricantes chineses só deve impactar o mercado global de forma significativa a partir de 2027. Além disso, os preços da CXMT já se aproximam dos praticados pelo trio dominante, indicando que a empresa pode não atuar como uma disruptora de custos, mas sim como uma nova integrante do oligopólio. O maior obstáculo, contudo, é geopolítico. A CXMT está na lista 1260H do Pentágono por supostos laços com o exército chinês, o que a coloca na mira de potenciais sanções americanas. Qualquer movimento de Washington poderia cortar essa nova fonte de suprimentos precisamente quando ela se mostra mais necessária.

A China não resolverá a crise de memória da noite para o dia. Hoje, porém, seus fabricantes são as únicas peças no tabuleiro se movendo para expandir a oferta de DRAM e NAND para o consumidor final. Se essa ajuda chegará a tempo — e se será permitido que ela chegue — dependerá tanto da velocidade de suas fábricas quanto da complexa partida de xadrez que se desenrola entre Pequim e Washington.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka