A Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) acusa uma firma de Long Island de orquestrar um esquema clássico de 'boiler room' com uma roupagem moderna. Segundo a denúncia, a The Spaventa Group levantou mais de US$ 74 milhões vendendo ações de algumas das startups mais cobiçadas do momento — como Anthropic, SpaceX, Anduril e Perplexity — para investidores de varejo.
A tese do órgão regulador é que a euforia em torno da inteligência artificial criou o terreno perfeito para a fraude. O caso, detalhado em reportagem da revista Fortune, expõe a vulnerabilidade de um mercado secundário aquecido e pouco transparente, onde a demanda por ativos pré-IPO supera em muito a oferta acessível ao público geral.
O velho golpe, a nova isca
O método descrito pela SEC é uma releitura do manual de fraudes financeiras. Mais de 100 agentes teriam realizado milhares de ligações de alta pressão, prometendo acesso a ativos exclusivos e sem taxas ocultas. A isca, no entanto, era a nova fronteira da tecnologia. O alvo: mais de 800 investidores, incluindo mais de uma centena de aposentados, que buscavam um atalho para os ganhos exponenciais da economia da inovação.
Contrariando a promessa, os investidores teriam pago um sobrepreço médio de 46% sobre o valor que os próprios fundos de Andrew Spaventa, o gestor no centro das alegações, pagaram pelas ações. Em alguns casos, o ágio chegou a 91%. Spaventa nega as acusações. O episódio ilustra a perigosa assimetria de informação entre operadores do mercado e o investidor comum.
Mercado secundário sob escrutínio
Este não é um caso isolado. A ação da SEC contra o Spaventa Group, que movimentou um volume expressivo de capital, sucede outras investigações menores sobre a venda fraudulenta de papéis de empresas privadas. O movimento sinaliza um cerco regulatório a um mercado que, embora vital para a liquidez do ecossistema de startups, opera em uma zona cinzenta, sem as salvaguardas das bolsas de valores tradicionais.
A grande demanda por ações de empresas como Anthropic e SpaceX criou um ambiente onde a verificação da autenticidade e do preço justo dos ativos se torna complexa para quem está fora do círculo de venture capital. Para o ecossistema, o caso serve de alerta: a exuberância que atrai capital legítimo também é um ímã para maus atores, com potencial para minar a confiança no mercado como um todo.
Independentemente do desfecho do processo, a fronteira entre os mercados privado e público está cada vez mais tênue e porosa. A questão que fica é se a regulação conseguirá acompanhar a velocidade da especulação, protegendo o varejo sem sufocar a liquidez que, em última análise, financia a própria inovação.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune




